Cravos, entre o passado e o desejo
“Naquele momento, Portugal era uma sociedade em que os de cima já não conseguiam governar e os de baixo já não queriam ser governados”, resume a historiadora portuguesa Raquel Varela, sobre as condições políticas que precederam a Revolução dos Cravos, em abril de 1974.
Ela esteve no Brasil no início de setembro para uma série de palestras e sessões de autógrafos de seus livros História do Povo na Revolução Portuguesa, Breve História da Europa, Breve História de Portugal e a HQ Utopia (Editora Veneta), também sobre o movimento social português.
Para uma acadêmica, foi um desafio mergulhar em uma nova linguagem.
“A HQ exige uma síntese muito rigorosa, mas sem perder a complexidade do processo histórico.
A imagem tem um poder pedagógico e emocional muito forte.
Ela mostra que a história não é feita apenas por grandes heróis, mas pelo povo comum em movimento”.
A historiadora define que Cravos ocorreu por uma combinação entre a crise das classes dominantes e a disposição de luta das classes trabalhadoras e de setores médios.
Nesse processo, a auto-organização popular foi decisiva.
“Para haver uma revolução tem que haver dualidade de poderes”, sustenta Varela.
“De um lado está o poder institucional do Estado; de outro, formas de organização dos trabalhadores, que podem aparecer em conselhos democráticos, com diferentes graus de desenvolvimento”.
É nessa perspectiva que ela interpreta o 25 de Abril de 1974.
O movimento dos militares que derrubou a ditadura de Salazar (1933-1974) teria sido, inicialmente, um golpe de Estado.
A revolução, para Varela, começa quando a população desobedece ao apelo dos militares para permanecer em casa e passa a ocupar as ruas e, principalmente, os locais de trabalho.
Professores passaram a defender formas de gestão democrática nas escolas; trabalhadores ocuparam fábricas; hospitais privados foram ocupados e passaram a ser administrados por conselhos de médicos e enfermeiros.
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