O dia a dia das noites de ataques a Kiev
Mais um alerta aéreo, mais uma notificação e mais mísseis a serem lançados sobre a capital da Ucrânia. Faltava pouco para a meia-noite, estava a acabar de exportar um vídeo sobre Federov quando o tempo só permitiu agarrar no casaco e no tripé. Nunca sabemos quanto tempo vai durar e o que vai acontecer.
Quando corremos a descer as escadas, já ouvimos as explosões. São fortes, muito ruidosas e frequentes. Colocamos as mãos nos olhos sempre que passamos por vidros que podem vir a estilhaçar. Do ar chegam vários mísseis e fica sempre o suspense sobre se o próximo virá mais perto.
Quando a proximidade é maior, tudo treme e ouvimos os carros a apitar. Algumas pessoas começam a chorar, outras a rir, com aquele sorriso nervoso. Alguém lê uma mensagem que diz tsentr e, nem um segundo depois, uma nova e grande explosão. Não ficou longe do centro.
Começamos a pensar em como iremos para o metro. Combinamos esperar por um intervalo possível: dois minutos a correr terão de ser suficientes. Passaram os balísticos e os Zircon. Não há tempo para ir buscar o portátil, acabar de exportar o vídeo ou sequer pegar numa simples garrafa de água.
Chegamos ao metro e já está muito cheio. Muitas pessoas vieram mais cedo, com tendas e colchões para passar a noite. Outros vão chegando. Uns dormem, outros fazem scroll pelas imagens dos ataques que vão chegando. Há também quem cuide do cão ou jogue às cartas. É o dia a dia de uma noite de ataques.
O chão é frio, o cansaço aperta e a sede acusa. O céu está limpo, por enquanto, por isso tentamos voltar a casa para buscar agasalhos, comida e o portátil para trabalhar. É sempre um erro não ter a mochila pronta à porta.
O tédio faz com que vejamos como maior desafio subir as extensas escadas rolantes do metro, desligadas, e os vários andares do prédio sem elevador.
Vamos e voltamos rapidamente, agora com maior conforto para passar o resto da noite. Os ataques regressam em força, mas despertam-nos outra curiosidade: há três lojas de flores abertas no metro às três da manhã, quando tudo fecha por lei à meia-noite.
Os vendedores dizem-me que, durante a noite, aproveitam para cuidar das plantas, preparar bouquets e que vão vendendo, mesmo durante o recolher obrigatório e os ataques.
Brinco com a ironia de não ser possível comprar água durante a noite, mas ser possível comprar flores.
A cultura das flores é poética na Ucrânia, mas agora também trágica. O negócio cresceu porque as flores não se destinam apenas aos braços das senhoras. Ladeiam campas e memoriais que inundam as cidades. São um pequeno símbolo de vida perante a morte.
Alguns ainda seguem a lógica de que o número ímpar de flores é para o amor e para momentos de celebração, enquanto os números pares ficam reservados para momentos tristes e fúnebres. Infelizmente, vivemos em tempos ímpares em que muitos pares se dissipam, não pela falta de chama, mas pelo fogo inimigo.
São muitas as viúvas e as mães que deixaram de receber flores e que agora as compram com desalento na alma.
O ataque continua e as flores que não murcham serão compradas pelos que aparecerão por bons e maus motivos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.