A inflação também se combate com juros nos depósitos
O Banco Central Europeu voltou ontem a subir as taxas de juro. Mais 0,25 pontos percentuais, levando a taxa de depósito para 2,5%, numa decisão determinada pela preocupação com uma inflação que voltou a ultrapassar os 3% na zona euro e que o BCE admite poder permanecer elevada durante mais tempo.
A mensagem parece ser clara. É preciso travar a procura e impedir que o aumento dos preços da energia se transforme numa inflação mais persistente. Mas há uma questão que continua a merecer atenção em Portugal: se os juros sobem para tornar o dinheiro mais caro, porque não devem também subir de forma mais significativa para tornar a poupança mais atrativa?
A política monetária funciona melhor quando a transmissão das decisões do BCE acontece de forma relativamente ampla. Não apenas através do crédito, mas também através da remuneração dos depósitos.
Quando os juros pagos pela banca aumentam, poupar torna-se mais interessante. Parte do rendimento disponível que poderia ser canalizado para o consumo fica aplicado, reduzindo a procura e contribuindo, por essa via, para aliviar as pressões sobre os preços.
Foi precisamente aqui que a banca portuguesa revelou uma assimetria durante o anterior ciclo de subida dos juros. O custo do financiamento aumentou rapidamente, mas a remuneração dos depósitos demorou muito mais a acompanhar essa evolução.
É verdade que a diferença entre os juros cobrados nos empréstimos e os pagos nos depósitos não corresponde integralmente a lucro. Existem custos operacionais, risco de crédito, requisitos de capital e provisões. Mas também é verdade que uma parte dessa diferença alimentou resultados extraordinariamente elevados da banca.
Os lucros recorde dos principais bancos portugueses tornam esta discussão ainda mais relevante. Não está em causa questionar a legitimidade dos lucros. Está em causa reconhecer que a banca tem um papel importante na transmissão da política monetária e, consequentemente, no combate à inflação.
Não defendo que o Estado determine administrativamente quanto cada banco deve pagar pelos depósitos. Uma intervenção excessiva pode, aliás, acabar por gerar custos adicionais para os clientes.
Se aumentar os juros do crédito é uma forma de retirar procura à economia, aumentar adequadamente os juros dos depósitos é uma forma de incentivar a poupança e retirar dinheiro de circulação.
Subir os juros do crédito e não acompanhar essa subida na remuneração da poupança é utilizar apenas metade do potencial da política monetária.
E, quando a inflação volta a ser uma preocupação, essa metade pode fazer diferença.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.