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Gronelândia, um passo em frente, mas em que direção?

CNN Portugal ·
Gronelândia, um passo em frente, mas em que direção?

Há duas maneiras de ler o acordo sobre a Gronelândia assinado em Nova Iorque, e dependem ambas de uma pergunta prévia: o que queria, afinal, Donald Trump?

Se, pelo contrário, a retórica agressiva era método negocial, como foi com o Panamá logo no início do mandato e como tem sido com o Canadá, então o acordo é um passo em frente para Washington. É a leitura que me parece mais correcta. Resta saber em que direção.

Comecemos pelo texto, que poucos leram. Não é um acordo novo, é uma revisão do acordo de defesa de 1951. O sobrevoo e a aterragem em qualquer ponto da ilha, apresentados por muitos como novidade, já lá estavam, quase palavra por palavra. Narsarsuaq, uma das "novas" bases, era área de defesa americana desde 1951. Durante a Guerra Fria os Estados Unidos tiveram na Gronelândia dezassete instalações e mais de dez mil militares, com uma liberdade que a Dinamarca não tinha meios para controlar. Hoje têm cerca de cento e cinquenta, em Pituffik. E qualquer nova área de defesa continua a exigir o acordo de Copenhaga e de Nuuk.

O que é de facto novo cabe numa linha: um acordo sem data de termo, o acesso submarino às águas territoriais, a exclusão militar de Estados de fora da NATO, o controlo do investimento em sectores sensíveis e o compromisso de que uma Gronelândia independente permanecerá na Aliança. Nada disto a Dinamarca teria recusado a um pedido razoável de um aliado. A diplomacia americana concretizou o que provavelmente teria concretizado sem os excessos do Presidente.

O ponto mais interessante está no investimento. O texto não nomeia a Rússia nem a China. Fecha os sectores sensíveis a quem não seja membro da NATO, parceiro da Aliança ou Estado da União Europeia, o que abrange ambas. Quanto à China, nada de novo: é a primeira linha das preocupações americanas. Quanto à Rússia, a questão é outra, porque Trump tem mostrado uma reserva mental evidente. Como tenho escrito nas minhas crónicas, o apreço por Putin e pelo seu estilo de liderança não o impede de enrolar Moscovo no processo negocial, dando-lhe pequenas benesses para aparentar uma ponte, enquanto lhe vai retirando espaço. Foi assim na Venezuela, em Cuba, na Síria e no Cáucaso do Sul. É assim agora no Árctico.

Mas o que verdadeiramente conta é o jogo longo. Sempre disse que a Gronelândia era uma questão à espera de acontecer. A Dinamarca nunca tratou a ilha como prioridade estratégica e aceitava, quase tacitamente, um caminho gradual para a independência. Uma Gronelândia independente, com 57 mil habitantes e um território imenso, cairia mais tarde ou mais cedo na órbita americana, nem que fosse daqui a cem anos. Bastava a Washington esperar.

Trump não esperou. E o resultado é que a Dinamarca volta a olhar para a Gronelândia, agora com uma lente europeia e árctica, com Bruxelas por trás e com dinheiro europeu a chegar a Nuuk. A Gronelândia senta-se à mesa como parte, e não como território. Ao mesmo tempo, a hostilidade contra o Canadá empurra Otava para a Europa, e o Canadá torna-se uma nova peça de uma arquitectura árctica mais ligada a Copenhaga e a Bruxelas do que a Washington.

Os Estados Unidos ganharam bases, permanência e um veto sobre o capital chinês e russo.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.

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