Anne Carson: do antigo ao contemporâneo, a força da palavra
Há vários anos que Anne Carson era apontada como uma provável candidata ao Nobel da Literatura, mas foi só este ano que o prémio foi entregue à classicista, poeta e tradutora canadiana, seis anos após ter recebido o Prémio Princesa das Astúrias de Letras . Um dos nomes grandes da poesia contemporânea em língua inglesa, Carson é conhecida pela forma inovadora como trabalha a forma poética, transpondo géneros e épocas, cruzando o clássico com o contemporâneo. Fascinada pela palavra escrita, “quase toda a sua produção literária tem-se focado no cruzamento entre a obsessão do filólogo pelas palavras e o desejo do poeta de encontrar novos significados”, destacou a Academia Sueca, que justificou a atribuição do Nobel à sua “obra ousada e criativa” da escritora, “a qual criou, através do diálogo com a tradição clássica, novas formas para a literatura contemporânea” .
Admirada por Susan Sontag, que a considerava um dos poucos autores de língua inglesa que valia a pena ler, Carson vingou em dois mundos tradicionalmente dominados por homens — o da academia e o da poesia. Doutorada em Estudos Clássicos, ao longo de mais de 30 anos, “conciliou a escrita de poesia com o trabalho de tradução e o ensino em várias universidades”, no Canadá e nos Estados Unidos da América. O amor pela literatura grega antiga, que descobriu por acaso, quando encontrou numa livraria uma edição dos fragmentos poéticos de Safo, permeia toda a sua obra, na qual os mitos gregos clássicos se misturam com o mundo e com as preocupações contemporâneas. Esse encontro pode assumir diferentes formas e até transpor o domínio da literatura. Ao longo dos anos, Carson tem-se aventurado noutras formas de arte e colaborado com artistas visuais, coreógrafos e diretores de ópera e de teatro.
Anne Carson vence o Nobel da Literatura de 2026 pela “obra ousada e criativa” que “criou novas formas para a literatura contemporânea”
Para a Academia , a forma como a poeta transita entre diferentes géneros “demonstra a liberdade com que ela se relaciona com as expectativas literárias e os sistemas de regras, o que, por sua vez, está na base da importância excecional que a sua obra tem tido para o mundo da literatura e da arte internacionais desde a década de 1990”, quando começou a receber a atenção dos críticos e a ser considerada para alguns dos mais importantes prémios literários, nos Estados Unidos e não só, quebrando, também, algumas barreiras. Carson foi a primeira poeta não americana a ser nomeada para o prémio atribuído pelo National Book Critics Circle, a primeira mulher a receber o T. S. Eliot Prize na categoria de poesia, a segunda canadiana a ser laureada com o Prémio Nobel da Literatura, 13 anos depois da contista Alice Munro, e a 19.ª mulher a receber o mais importante galardão literário.
Anne Carson nasceu a 21 de junho de 1950, em Toronto, no Canadá. Durante a infância, a segunda e última filha de Margaret e Robert Carson viveu em diversas localidades na área de Toronto. A família foi obrigada a mudar-se várias vezes por causa do trabalho do pai, funcionário do Toronto-Dominion Bank.
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