Inflação. Para a previsão do Governo se concretizar era preciso que o preço do petróleo caísse 20%, alerta CFP
O Conselho das Finanças Públicas (CFP) alerta que o Governo pode estar a subestimar a inflação e a contar com um crescimento da economia, do emprego e dos salários demasiado favorável no cenário que sustenta o Orçamento do Estado para 2027. No parecer enviado às redações, o organismo independente valida as previsões macroeconómicas, considerando prudentes as evoluções dos preços implícitos no PIB, mas identifica fragilidades que podem comprometer as expectativas do Executivo e criar “riscos acrescidos para a receita decorrente da massa salarial”.
Uma das reservas incide sobre o crescimento económico de 2,1% previsto para 2027, superior àquilo que é projetado por todas as instituições de referência analisadas, cuja média ajustada se situa em 1,8%. Dessa forma, para cumprir a previsão do Ministério das Finanças, a economia teria de crescer aproximadamente 0,6% por trimestre, o dobro do ritmo implícito para a segunda metade de 2026.
Para além disso, alerta o CFP, essa aceleração teria de decorrer num contexto sem acesso já ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e também num momento de crescimento do preço dos combustíveis, da eletricidade e por condições de financiamento mais restritivas.
No que diz respeito à inflação, a crítica incide no facto de se "afigurar pouco provável” a previsão de 2,9% para 2026. Segundo os esclarecimentos prestados pelo Governo, esse valor corresponde à média das observações registadas entre janeiro e agosto, uma opção justificada pela dificuldade de produzir previsões robustas perante a incerteza externa. No entanto, o exercício realizado pelo organismo, que prolonga até dezembro o comportamento habitual dos preços em cada mês, aponta para uma inflação média anual de 3,2%.
Para que a previsão do Governo se concretizasse sobre a inflação ainda este ano, os preços dos produtos energéticos teriam de terminar aproximadamente 7% abaixo do nível registado em setembro, refere o CFP, sublinhando que, pela relação histórica entre o petróleo e a componente energética da inflação, isso exigiria uma queda acumulada superior a 20% no preço do barril. “Tal é incompatível com a trajetória do preço do petróleo assumida pelo próprio MF”, sublinha o parecer.
Num exercício com 20 cenários baseados nas surpresas de preços de anos anteriores, apenas dois resultariam numa inflação igual ou inferior aos 2,9% previstos pelo Executivo, sendo que nos restantes 18 seria superior (entre 3,0% e 3,5%)
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