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Jorge Palma, 1950-2026. Porque as palavras tinham de caber

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Jorge Palma, 1950-2026. Porque as palavras tinham de caber

O primeiro problema sério de Jorge Palma com a língua portuguesa era de espaço.

Em inglês ainda se safava. Tinha Dylan, Cohen, Paul Simon, Neil Young, tinha ouvido aquela gente toda até as canções lhe entrarem para dentro do corpo, sabia mais ou menos como é que uma sílaba inglesa se deita numa nota sem fazer barulho, mas em português as palavras vinham grandes, cheias de consoantes, com joelhos e cotovelos, e não havia maneira de as sentar dentro da música.

Tordo deu-lhe o número de telefone de José Carlos Ary dos Santos. Jorge Palma telefonou ao fim da tarde. Às nove estava em casa de Ary. Vieram os gins, naturalmente, e veio uma aula que não parecia uma aula: Jorge tocava a melodia e Ary ia experimentando sons em cima dela, primeiro sem a preocupação humilhante de dizer uma coisa inteligente, porque para chegar à palavra era preciso acertar antes no lugar da palavra. Jorge guardou para sempre um exemplo daquele método: “O gato cospe no frigorífico”. Dizia-se o disparate, encontrava-se a métrica, ouvia-se a acentuação, mexia-se outra vez e, a certa altura, aquilo começava a significar alguma coisa.

Durante cerca de ano e meio encontraram-se quase todas as noites. Jorge Palma disse mais tarde que absorveu a técnica de Ary como uma esponja.

É uma história formidável porque Jorge Palma, que morreu esta segunda-feira à noite, aos 76 anos, passou depois meio século a fazer exactamente isso: a descobrir onde cabiam as palavras portuguesas.

A morte foi comunicada pela família numa frase muito limpa — paragem cardiorrespiratória, segunda-feira à noite, 76 anos — e não há nada a censurar à frase excepto a sua eficácia. Serve perfeitamente para dizer que um homem morreu. Para dizer qual, temos um problema.

Talvez seja preciso voltar atrás, mas não muito atrás, apenas o suficiente para encontrar uma criança entre duas pessoas que não podiam ser mais diferentes. A mãe levava-o ao São Carlos, punha-o a estudar piano, exigia disciplina, administrava uma casa onde o dinheiro não abundava e chegou a prometer-lhe uma recompensa se aprendesse os três andamentos de uma sonata de Beethoven. Jorge, que tinha 11 ou 12 anos e queria o dinheiro, tratou de aldrabar a sonata do princípio ao fim. O pai aparecia quando aparecia. Jorge chamava-lhe um cavaleiro andante: boémio, jogador de póquer, capaz de ganhar muito dinheiro e de o perder, conduzia a cantar boleros, tangos e Tony de Matos, comprava gelados ao filho e, quando este chegou aos 14 anos, também lhe dava uma cerveja. Jorge adorava aqueles dias.

Não convém fazer disto uma explicação psicológica, que é a maneira mais rápida de estragar uma infância, mas é difícil não gostar do acaso. De um lado havia uma mulher a mandar tocar Beethoven como deve ser; do outro, um homem que aparecia de carro, cantava e fazia pouco caso do relógio. Jorge ficou com o piano.

Houve uma altura em que ninguém tinha mão nele e os pais enfiaram-no num colégio interno nas Mouriscas, em Santarém, onde passou três anos sob uma disciplina que não chegava a ser militar mas se aproximava perigosamente do conceito.

Numas férias foi para o Algarve, encontrou uma banda que precisava de teclista e ficou.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.

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