"O risco não está nas urnas". Rússia prepara-se para eleições legislativas com um do principais pilares do Kremlin "em risco"
A Rússia vai eleger, entre os dias 18 e 20 de setembro, os novos representantes para o parlamento, naquele que será o primeiro escrutínio legislativo desde o início da invasão da Ucrânia. Apesar de o resultado esperado ser a vitória expressiva do partido do regime, o Rússia Unida, o ato eleitoral ocorre num momento em que a população começa a sentir diretamente o peso de um conflito que já dura há mais de quatro anos e meio. O perigo, alertam os analistas, não está no risco de uma derrota nas urnas, mas sim no desgaste de um dos mais importantes pilares do poder do Kremlin.
"Esta guerra não é uma guerra existencial para a Rússia, mas é uma guerra existencial para o regime russo. Perder esta guerra, tornar esta guerra muito onerosa para os russos, pode significar o fim do regime. O contrato social entre Putin e a classe média, com a população fora da política em troca de poder de compra e segurança, está em risco", defende a investigadora Diana Soller.
Em disputa vão estar os 450 assentos da Duma para mandatos de cinco anos, metade atribuídos por listas partidárias e os restantes 225 por círculos uninominais, num processo sem a presença de observadores internacionais da OSCE e sem a vigilância do grupo independente Golos, encerrado sob forte pressão governamental em 2025. O objetivo do Kremlin é manter a supermaioria de, pelo menos, 300 lugares, que lhe permite fazer revisões constitucionais sem necessidade de negociar com a chamada "oposição sistémica", como o Partido Comunista ou os ultranacionalistas do LDPR.
A votação vai estender-se ainda aos territórios ocupados na Crimeia e nas regiões anexadas de Donetsk, Lugansk, Zaporizhzhia e Kherson, onde a recolha antecipada de votos decorre sob fortes restrições de segurança.
Para blindar o processo, o Supremo Tribunal russo proibiu o Yabloko de concorrer nas listas partidárias, afastando a única força política registada que se apresentava com o objetivo de alcançar um acordo de paz com a Ucrânia o mais rápido possível. Ao mesmo tempo, vários candidatos dissidentes acabaram travados após serem catalogados como "agentes estrangeiros".
"A Rússia tem a tendência de tentar excluir de todas as maneiras e feitios, incluindo através de prisões e assassinatos, aqueles que são dissidentes relativamente à narrativa oficial. Há um receio maior neste momento de que se fale, em campanha eleitoral, de realidades que Vladimir Putin não quer verdadeiramente que sejam verbalizadas publicamente", explica Diana Soller.
O Kremlin teme que os últimos meses tenham exacerbado a insatisfação da população russa. A Ucrânia intensificou significativamente a sua campanha contra as infraestruturas energéticas russas, particularmente as suas refinarias. Milhares de utilizadores das redes sociais russas partilharam vídeos de drones a voar sem oposição nos céus russos e alguns mostraram mesmo as consequências dos ataques, com as refinarias em chamas.
Além disso, está a ser cada vez mais notório para a população russa o efeito da escassez de combustível. Os ataques ucranianos conseguiram parar mais de 50% de toda a produção de gasóleo no país, de acordo com a Reuters.
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