Estas trombetas egípcias ficaram em silêncio mais de 3.000 anos
Estima-se que, numa noite de abril de 1939, 150 milhões de ouvintes em todo o mundo sintonizaram uma notável emissão de rádio da BBC, que ainda hoje causa admiração.
“As trombetas do faraó Tutankhamon!”, anuncia o locutor da BBC. Uma breve inspiração e depois o som estridente de uma trombeta que permaneceu em silencia mais de três mil anos dentro do túmulo do jovem faraó. Durante os minutos que se seguem seguinte, a fanfarra militar viaja do Museu Egípcio do Cairo, para o resto do mundo através das ondas hertzianas.
Esta gravação, que é “arrepiante e emocionante”, é também “uma ponte auditiva e sensorial entre a época de Tutankhamon e os dias de hoje”, afirma Salima Ikram, professora de Egiptologia na Universidade Americana do Cairo. Já para o músico da banda do exército britânico, James Tappern, que tocou aquelas que são as trombetas de metal mais antigas que existem, “a intimidade é extraordinária”.
O instrumento era uma das duas pequenas trombetas ornamentadas — uma de prata, a outra, segundo se crê, de bronze ou cobre — que foram encontradas entre os tesouros de Tutankhamon mais de uma década e meia antes. Na sua origem, as trombetas podem “ter sido tocadas numa procissão quando o rei passava”, descreve Ikram, acrescentando que a arte egípcia antiga retrata as trombetas a serem utilizadas em eventos militares, religiosos e cerimoniais.
Estas trombetas exigiam metalúrgicos habilidosos, capazes de criar um instrumento musical belo e funcional. As extremidades caneladas contam com imagens intrincadas — motivos florais e deuses egípcios. E o facto de haver duas — uma de bronze como o sol, a outra de prata como a lua — pode ser visto como "abrangendo as 12 horas do dia e as 12 horas da noite, o que faz parte da viagem de Tutankhamon deste mundo para o outro", diz Ikram.
Hoje, através da emissão da BBC, dá-se a estranha sensação de uma dupla viagem no tempo - para as pessoas reunidas à volta dos seus rádios na década de 1930, que estão a ouvir o som do antigo Egito.
Contudo, a própria gravação — que aconteceu em circunstâncias misteriosas e quase destruiu uma das trombetas — também realça como a nossa relação com as antiguidades evoluiu drasticamente nas últimas décadas.
A transmissão radiofónica esteve quase para não acontecer. Durante os ensaios, foi colocado um bocal moderno na extremidade da trombeta de prata, de modo que fosse tocada. Quando o trompetista soprou, o instrumento estilhaçou-se. O arqueólogo Alfred Lucas, que fazia parte da equipa de Howard Carter que escavou o túmulo, e estava presente naquele momento, terá sido hospitalizado devido ao choque.
Ainda assim, isso não os impediu de tentar de novo com o instrumento já reparado. Pouco antes da transmissão, houve um apagão no museu. A sessão acabou por ser realizada à luz das velas. Alguns meses depois do toque das trombetas, começou a Segunda Guerra Mundial. Para muitos, foi a confirmação da lendária maldição de Tutankhamon — algo que Ikram descarta imediatamente.
Devido à sua fragilidade, é quase certo que as trombetas nunca mais voltarão a ser tocadas. "Num mundo ideal, teriam feito uma réplica e tentado usá-la", diz Ikram.
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