Davi Kopenawa traz os sonhos Yanomami às cidades portuguesas
O xamã Yanomami Davi Kopenawa contrapõe a relação do seu povo com a natureza à vida citadina, onde luz artificial, telemóveis e procura de riqueza afastam as pessoas dos sonhos, uma forma de conhecimento central na cultura indígena.
Em Portugal, pela primeira vez, para falar sobre o livro "A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami", escrito com o antropólogo Bruce Albert, e participar em várias conferências, para divulgar a escola Yanomami dos sonhos, Kopenawa passa por Óbidos, Coimbra e Lisboa, levando a um público urbano a visão do mundo do seu povo, no Brasil, e a relação íntima com a floresta.
"Eu sonho direto, porque a cultura da terra está comigo", afirmou à agência Lusa, explicando que continua a sonhar mesmo quando se encontra longe do território Yanomami.
A experiência da cidade, porém, é diferente. Kopenawa observa que os `napë pë` (os brancos) que antigamente também sonhavam muito, vivem hoje rodeados de luz artificial: "Hoje, a cidade está toda iluminada, cheia de luz, e os brancos não dormem", observou, apontando os écrans digitais como um dos bloqueios ao pensamento, à partilha e à capacidade de sonhar "longe".
"Olhando o celular, o sonho não vai entrar no seu pensamento, na sua filosofia", afirmou, numa crítica a um modo de vida que, na sua perspetiva, deixa cada vez menos espaço à relação com a natureza e ao conhecimento transmitido pelos sonhos.
Na cultura Yanomami, sonhar não é apenas uma experiência individual ou noturna: é uma forma de conhecer o mundo e orientar a vida. Os xamãs estabelecem relações com os espíritos da floresta, os `xapiri`, num trabalho espiritual que contribui para manter o equilíbrio do universo.
Esta visão contrasta com aquilo que Kopenawa identifica como uma preocupação central do mundo urbano: a acumulação de riqueza através da exploração dos recursos naturais.
"O sonho de todos da cidade é extrair ouro, diamante, [...] as madeiras e o dinheiro", afirmou, resumindo a sua crítica numa frase: "O dinheiro é uma doença".
Para o líder indígena, a terra não é apenas um território de onde se retiram matérias-primas, mas a origem da água, dos alimentos e da vida. O seu povo continua a cultivar os alimentos tradicionais e a cuidar da floresta, numa relação que considera essencial à sobrevivência de todos.
"O povo Yanomami preserva a natureza, cuida da nossa terra", disse, lembrando que a água, as montanhas, a saúde e a própria língua fazem parte de um património que é preciso proteger.
É nesse sentido que a imagem da queda do céu, que dá título ao livro, ultrapassa a realidade do seu povo.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.rtp.pt — o conteúdo pertence a RTP Notícias.