Almodóvar em tom autoficcional menor e a olhar para o umbigo
O último grande filme de Pedro Almodóvar foi o semiautobiográfico Dor e Glória (2019), em que Antonio Banderas interpreta uma versão do realizador, Salvador Mallo, quase a fazer 70 anos, crivado de maleitas físicas e atormentado por achaques existenciais e da alma. Mallo julga ter deixado para trás os seus dias de glória, e não considera sequer conseguir escrever um argumento ou rodar um filme. Dor e Glória é uma grave e sentida ficção do “eu” levada a cabo por Almodóvar, cheia de autenticidade emocional, psicológica e confessional, feita num importante momento de introspeção existencial e criativa, pesando a sua vida e a sua carreira artística.
O filme dentro do filme chama-se Natal Amargo (embora quase não se dê pela quadra) e passa-se nos primeiros anos deste século. Elsa é uma versão de Raúl, e Bonifacio do namorado deste, Santi (Quim Gutiérrez), mas o enredo também vampiriza a vida de Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), lésbica e grande amiga e assistente de Raúl, que lhe pediu três meses de férias para ajudar duas amigas: Patricia (Victoria Luengo), cujo marido a terá traído durante uma viagem de negócios a Paris e que tem um filho pequeno, e Natalia (Milena Smit), uma modelo que perdeu o filho num acidente, entrou em depressão, deixou de trabalhar e foi refugiar-se em casa da mãe, na aldeia em que nasceu.
Quando Mónica lê o argumento e se reconhece em Elsa e nos problemas desta, fica furiosa com Raúl, ameaça-o com um processo judicial e também fisicamente, e a sua amizade é abalada. Mesmo assim, o realizador não recua e, muito pelo contrário, percebe que a história não é sobre ele e Santi, mas sim sobre Mónica, e apesar dos protestos desta, vai dar uma nova direção ao guião. Tudo em Natal Amargo , das complicações auto/meta-ficcionais à intriga dos filmes no filme e também deste, passando pela reflexão sobre a legitimidade ou não do recurso a pessoas reais e às suas vidas para construções de ficção, é raso e sensaborão, trocado em miúdos de lugares-comuns, muito pouco envolvente e até mesmo postiço. E a fita é maçadora, coisa invulgar em Almodóvar, arrastando-se durante os primeiros 45 minutos e namorando com a mais impessoal televisão.
Os momentos em que Almodóvar parece autoparodiar-se sem querer são abundantes. E não falta a piada anti-Netflix, quando Mónica diz a Raúl que não se preocupe com o seu declínio criativo, já que atingiu o estatuto de realizador de culto, e faça um filme para esta plataforma de streaming . Até no humor autodepreciativo Almodóvar não consegue ser original, e o recurso a canções de Chavela Vargas em duas sequências, em vez de relevante para a história ou para as emoções, é ridículo e forçadamente melodramático. Por falar em música, a banda sonora de Alberto Iglesias parece pertencer a um filme melhor que Natal Amargo .
Igualmente raro no cinema de Pedro Almodóvar, as interpretações são medíocres e baças, refletindo a debilidade narrativa e a personalidade visual do filme. O argentino Leonardo Sbaraglia é indiferente na pele de Raúl Rossetti, mas a personagem também não passa do estereótipo do realizador com bloqueio criativo. Bárbara Lennie parece sofrer de paralisia facial.
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