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E se deixarmos de dizer aquilo em que acreditamos?

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E se deixarmos de dizer aquilo em que acreditamos?

Li neste verão um livro do Alfonso Aguiló , bom amigo, expert de educação. A leitura foi importante para mim que trabalho diariamente numa escola . Ajudou-me a responder a uma pergunta: uma escola pode ter uma identidade sem deixar de respeitar quem pensa de maneira diferente? Ou, dito de outra forma: pode, ou deve, uma escola dizer aquilo em que acredita, mesmo que nem todos acreditem?

É uma pergunta sobre os desafios da educação numa sociedade plural. Há uma história que o autor conta e nos ajuda a perceber porquê. Pouco depois da Segunda Guerra Mundial, um hospital de Kansas City (EUA) tomou uma decisão pouco consensual: decidiu contratar médicos negros, formar médicos negros e admitir doentes negros. O objectivo era evitar a segregação racial. Mas nem todos concordaram. As autoridades ameaçaram fechar o hospital. O arcebispo Edwin O'Hara e as Irmãs de Maryknoll, responsáveis pela instituição, não recuaram. A resposta terá sido, em resumo: “Tentem. Atrevam-se.” O hospital não fechou.

A história fez-me pensar numa questão que continua actual: o que deve fazer uma instituição quando aquilo em que acredita entra em conflito com aquilo que a maioria considera aceitável? É uma pergunta interessante quando falamos de escolas. Porque uma escola educa. E educar é inevitavelmente transmitir uma determinada visão da pessoa, da liberdade, da responsabilidade e da sociedade (1).

Vivemos numa democracia e, felizmente, temos leis que regulam a nossa vida comum. Mas existe uma diferença entre cumprir a lei e considerar que tudo aquilo que é legal é, automaticamente, justo. A história recorda-nos isso. Houve sociedades em que a escravatura era legal. Houve países onde as mulheres não tinham direito de voto. Houve leis que legitimavam a segregação racial. Se as escolas só pudessem ensinar aquilo que já estivesse plenamente consagrado na legislação ou no consenso social, como seria possível preparar os alunos para transformar a sociedade?

É por isso que educar não pode ser apenas transmitir consensos. É também ensinar a pensar, a questionar, a argumentar. E isso vale para temas como a vida, a morte, a sexualidade, a família, a liberdade, a imigração, a pobreza ou a inteligência artificial.

Uma escola não tem de transformar a sala de aula num campo de batalha ideológico. Mas também não pode educar alunos para terem medo das perguntas difíceis.

Há outro episódio contado neste livro que me parece eloquente. Ao recordar a posição de muitos bispos norte-americanos perante a escravatura no século XIX, o autor reconhece que a Igreja poderia ter sido muito mais assertiva. Para muitos, o tema era demasiado controverso. Talvez fosse melhor não falar. Hoje, olhando para trás, esse silêncio incomoda. E talvez nos obrigue a perguntar: quantas vezes confundimos prudência com medo? Evitar todos os assuntos controversos pode parecer uma forma de proteger os alunos.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.

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