Aqui estão alguns dos últimos rebeldes maoístas. Agora a luta está no fio da navalha
Em desvantagem numérica, de armamento e com o tempo contado, Papa Rao emergiu da selva do centro da Índia com uma camisa xadrez desbotada, calças empoeiradas e ténis surrados. Trazia uma espingarda a tiracolo e uma recompensa de 22 mil euros dólares pela sua cabeça.
Atrás dele, em fila indiana, seguia um grupo de homens e mulheres que transportavam espingardas L1A1 e Lee-Enfield de há décadas. De sandálias e mochilas desportivas da marca Puma, este grupo era constituído por alguns dos últimos rebeldes maoístas do mundo, herdeiros de um movimento revolucionário global que lutou contra o capitalismo pelo controlo do século XX. Estavam a caminho da rendição.
Inspirados pelos ensinamentos de Mao Tsé-Tung, da China, passaram décadas a lutar para derrubar o Estado indiano e instaurar no seu lugar uma utopia sem classes. A rebelião que ajudaram a travar matou milhares. No seu auge, há quase 20 anos, o líder da Índia descreveu os maoístas como a maior ameaça à segurança interna do país, uma mancha no seu estatuto de maior democracia do mundo e nas suas aspirações de se tornar uma potência global.
Nos últimos meses, as forças de segurança mataram vários maoístas de alto escalão e os membros comuns estão a depor as armas. A economia capitalista da Índia está em plena expansão e o governo nacionalista hindu está a esmagar os seus adversários de esquerda nas urnas. O maoísmo será completamente erradicado do país este ano, proclamou o governo.
Horas depois de saírem da selva, Papa Rao e os seus 17 camaradas subiram a um palco. À frente deles, uma fila de câmaras. Atrás, um painel anunciava o seu “regresso à sociedade”, em inglês e hindi. As suas armas antigas, que tinham sido entregues, estavam expostas e etiquetadas, como peças de museu; sobre mesas cobertas com toalhas azuis, cartuchos de munições formavam a palavra em hindi para “voto sagrado”.
Enquanto as câmaras filmavam, cada ex-insurgente recebeu uma rosa e uma cópia da Constituição indiana: um juramento simbólico de uma nova lealdade. Ouviram discursos de políticos locais e posaram para fotografias com membros das forças de segurança, antes de serem conduzidos para fora do palco e acolhidos pelo Estado indiano.
A viagem até este ponto começou há quase um século e a centenas de quilómetros de distância, na China, quando Mao Tsé-Tung reformulou a teoria marxista-leninista para se adequar às condições pré-industriais do seu país. A sua nova doutrina alimentou uma guerra que durou décadas – uma guerra que, em última análise, conduziu o movimento comunista à vitória e ao poder do Estado em Pequim, em 1949.
Nos anos seguintes, Pequim financiou ou armou outros comunistas no Vietname, Coreia do Norte, Birmânia, Malásia, Tailândia e Camboja, causando o pânico em Washington e noutras capitais ocidentais, à medida que as lutas ideológicas da Guerra Fria se espalhavam pela Ásia.
Na Índia, os guerrilheiros maoístas são conhecidos por um nome diferente: naxalitas. Esta alcunha vem de uma violenta revolta camponesa de 1967 contra os latifundiários opressores em Naxalbari, uma aldeia no sopé dos Himalaias, no nordeste da Índia.
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