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Cruzes, os canhotos! Marx (e Maomé) na Casa Branca!

Observador ·
Cruzes, os canhotos! Marx (e Maomé) na Casa Branca!

14 de fevereiro de 1976, Cidade do México, Cinema Palácio. Vai começar “Odisseia dos Andes”, documentário sobre um acidente de avião em que os sobreviventes devoram os cadáveres dos amigos. Premonitório? Na plateia, Gabriel Garcia Márquez avista o compadre Mário Vargas Llosa e escancara os braços de par em par. O peruano precipita-se sobre o colombiano e dá-lhe um coice no focinho, que jorra sangue tipo repuxo: “Como te atreveste?” Incrédulo, Gabo cambaleia – alguém corre a um talho e volta com um bife cru para o olho negro digno de um panda. Ao menos, ao contrário do que ia passar-se no ecrã, o bife não é de nenhum conhecido.

Os dois autores já não eram BFF (best friends forever), como quando compartilhavam o exílio em Barcelona, e Gabo convidou Llosa para padrinho do seu filho. Gabo sempre observou uma inoxidável ortodoxia esquerdista, apoiando Fidel Castro afetuosamente, e nunca deu um pio sobre fuzilamentos sumários ou perseguições a literatos na ditadura cubana, que condenava noutras paragens. Llosa chamou Gabo “o cortesão”, e candidatou-se à presidência do Peru pela centro-direita. Porém, a batatada no cinema não foi política nem dor de cotovelo literária (ambos embolsaram o Nobel), mas o cliché policial: “cherchez la femme”. Llosa, engatatão inveterado, seduzira uma hospedeira de bordo sueca, sua mulher Patrícia soubera e Gabo lhe sugerira o divórcio. Quando o peruano voltou para a casa com o rabinho entre as pernas, Patrícia contou-lhe do conselho do amigo. Daí a pera, que encerrou simbolicamente o “boom” literário latino-americano do Realismo Fantástico.

Hoje, uma era de polarização inflamatória, em que ambiguidades e matizes são cada vez mais tabus, aquela rixa soa presciente. Mas o contraditório e alternância no poder são a essência da democracia: os eleitores punem nas urnas os políticos que não cumpriram as promessas. O que já não é normal foi o quase meio século das satrapias da URRS na Europa Oriental, “democracias populares” que não eram nem democráticas nem populares, de partido único e censura blindada. E tão-pouco as ditaduras militares em 15 países da América Latina no século XX, várias delas a repetirem a dose – e que Vargas Llosa e Garcia Márquez retrataram nos romances “A Festa do Chibo” e “O Outono do Patriarca”, respectivamente.

Agora a direita tem a maioria no continente americano, e não há ditaduras militares tintinescas tipo general Alcazar ou república das bananas. Em compensação, duas das mais caquéticas autocracias do mundo são da esquerda latino-americana: Cuba e Nicarágua (o bolivarianismo chavista ainda não fez 30 anos).

Há bocadinho, no 47º aniversário da Revolução Sandinista, Daniel Ortega (81 anos) espumou: “Acabou-se a mariquice de eleições!” Anastasio Somoza, o último presidente da dinastia que mandou na Nicarágua desde 1939, foi deposto em 1979 por uma frente que incluía conservadores, comunistas e a Igreja Católica. Agora, a família Ortega-Murillo também tem um sonho dinástico. Daniel Ortega, Rosario Murillo (sua mulher e “copresidente”) e seus cinco pimpolhos vampirizam o país com uma avidez transilvânica.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

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