A Figura do Dia: Deixa-me rir, Jorge
Era o mais imperfeito entre todos os que marcaram a nossa vida nos últimos 50 anos.
Compôs canções tocadas pela eternidade em madrugadas de whisky e tabaco.
Foi excessivo, solitário, autodestrutivo, mas também genial, generoso e sumptuosamente livre e insubmisso.
Jorge Palma morreu, parece impossível que tal lhe tenha acontecido.
É que às tantas, ao vê-lo em palco, sempre desafiador, sempre mais jovem do que os jovens que o aplaudiam, sempre mais indomesticável do que aqueles que têm a perder, convenci-me de que fosse infinito.
Bastava o primeiro acorde de “Estrela do Mar” para viajarmos para um outro mundo, bastava que nos falasse de Amor para desejarmos que existisse mesmo o bairro mais utópico das nossas vidas, bastava a primeira ginga para dançarmos com ele na sua inquebrantável fragilidade.
"Era o mais imperfeito entre todos os que marcaram a nossa vida nos últimos 50 anos.
Compôs canções tocadas pela eternidade em madrugadas de whisky e tabaco.
Foi excessivo, solitário, autodestrutivo, mas também genial, generoso e sumptuosamente livre e insubmisso." Era o mais imperfeito dos homens.
Não há elogio maior que lhe consiga fazer, nada é mais belo do que a imperfeição, nada é mais definidor das pessoas que verdadeiramente marcam a história.
Nesta época de perfeitinhos e idiotas sem mácula, que a memória coletiva raramente premeia, abram alas para que Jorge Palma possa ter no lugar para onde foi, e o mais rapidamente possível, o piano de cauda onde continuará, de certeza absoluta, a existir estrada para andar.
Morreu um enormíssimo monstro.
Alguém que nunca quis parecer ser o que não era, o que foi sempre ele próprio.
O único dos músicos portugueses que se poderia sentar na mesma mesa de Patti Smith, Bob Dylan, Laurie Anderson ou Nick Cave, sem parecer deslocado ao primeiro refrão.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.