Cidadania hiperlocal: duas ruas da Mouraria
Há uns dias estive, juntamente com um grupo de moradores de várias nacionalidades, na Mouraria, a dar continuidade a um trabalho que começou há meses e que gosto de chamar de um exercício prático de “cidadania hiperlocal”. O objetivo era modesto na escala e ambicioso no propósito: transformar dois pequenos arruamentos, tornando-os menos hostis, menos abandonados e, sobretudo, menos disponíveis para o uso que ali se tinha instalado como rotina para atividades ligadas ao consumo e ao narcotráfico.
Quem conhece certas zonas de Lisboa sabe do que falo. Há ruas que, por acumulação de degradação, problemas crónicos de iluminação pública, falta de manutenção e ausência de presença humana regular, acabam por ser apropriadas por atividades marginais. Tornam-se pontos de tráfico e consumo, autênticas salas de chuto a céu aberto, onde o espaço público deixa de pertencer a quem nele vive e passa a pertencer a quem dele se serve para outros fins. A resposta a este fenómeno é frequentemente pensada em termos de policiamento, de fiscalização, de intervenção reativa. E, sem dúvida, essa dimensão tem o seu lugar. Mas há uma outra resposta, mais lenta e mais silenciosa, que raramente entra no discurso público: a da própria comunidade local a recuperar, palmo a palmo, o território que lhe pertence.
Foi isso que tentámos. Nada de grandioso: vasos com plantas a ocupar esquinas antes vazias, iluminação LED adicional a compensar a rede pública cronicamente avariada, operações localizadas de limpeza de passeios e calçada. Gestos pequenos, quase domésticos, mas que têm uma lógica por trás: um espaço cuidado comunica algo. Comunica que ali há olhos, que ali há gente, que ali há uma normalidade que não convém a quem precisa de sombra e de abandono para operar. A hostilidade que se pretende combater não é dirigida às pessoas, é dirigida ao uso indevido do espaço; e ao tornar esse espaço menos propício a esse uso, ele tende a deslocar-se para outro lugar, tal como a água encontra sempre o caminho de menor resistência.
Meses volvidos, é possível fazer um balanço, e o balanço é positivo. As duas ruas mudaram de carácter. Onde antes havia um vazio ocupado por atividades marginais, há hoje um espaço que os moradores voltaram a sentir como seu. Não se trata de uma vitória definitiva, nem ingenuamente presumo que o problema desapareceu de Lisboa: ele simplesmente já não está ali, deslocou-se, e essa é também uma limitação honesta deste tipo de intervenção, que precisa de ser dita sem rodeios. Mas o que este exercício demonstra, de forma muito concreta, é que a escala hiperlocal tem um poder de transformação que a escala macro, por vezes, não consegue replicar com a mesma agilidade.
É por isso que defendo, sem grandes cerimónias, que esta experiência não deve ficar confinada a duas ruas da Mouraria. Foi dinamizada por um grupo informal de moradores, quase sem apoio institucional, com os recursos e o tempo que cada um conseguiu disponibilizar.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.