domingo, 11 de outubro de 2026 PortaisSobre🌓
🇵🇹 PT ▾
ÚLTIMA HORA
Últimas

Nas águas turvas e pulsantes de Inês Zenha

Observador ·
Nas águas turvas e pulsantes de Inês Zenha

Entramos numa espécie de caverna. Há tubos de esgoto em grés vidrado de onde irrompem plantas ruderais, água que corre tal como numa fonte e pinturas que evocam criaturas que emergem de um território subterrâneo. É esta a paisagem fluida, imersiva e sensorial de Águas Turvas , a primeira exposição de Inês Zenha (n. 1995) num museu nacional. Abre portas esta sexta-feira, dia 18 de setembro, no CAM Gulbenkian, em Lisboa. Entre barro, cerâmica, pintura e elementos naturais, a artista portuguesa apresenta um território atravessado por questões de identidade, desejo e corporeidade, marcado pelo modo como olhamos para o outro que se dá a ver.

Como se nos situássemos num futuro pós-apocalíptico, encontra-se logo nesse primeiro gesto uma chave de leitura essencial: por mais contida ou restringida pela ação humana, a natureza encontra sempre formas de ressurgir e florescer. É também a partir desta metáfora de resiliência e transformação que a artista portuguesa aborda a ideia de uma travessia pelo seu próprio universo, pelo seu corpo e pela sua individualidade. Da água que corre às ervas que brotam espontaneamente das peças, os elementos parecem reclamar o seu lugar num espaço que é, afinal, vivo e pulsante.

“Trata-se, acima de tudo, de um trabalho interior e material com as minhas próprias verdades e com a oportunidade de construir uma narrativa. Quero dizer algo com estas Águas Turvas , que são um olhar sobre a minha vida e o meu passado”, partilha a artista. Para Inês Zenha, a caverna e a invocação do esgoto prendem-se com a vontade de trabalhar sobre “o que é sujo ou as moralidades vigentes”, numa tentativa de dar voz a identidades tantas vezes remetidas ao silêncio.

Este gesto é, em simultâneo, uma exigência de espaço e um apelo: “Trata-se de reclamar um lugar de visibilidade. É um convite a lidarmos e enfrentarmos o que é estranho e diferente do que nos é imposto pela sociedade como ‘não natural’, algo que pode provocar sentimentos de nojo ou de julgamento, sendo que esse julgamento nos toca a todos”, defende Inês Zenha. “Por isso, quando caminhamos por este percurso, estamos a falar de nós próprios para, quiçá, nos libertarmos desses constrangimentos sociais.” A partir dessa dimensão, como realçam os curadores João Mourão e Luís Silva, importa sublinhar como nesta mostra se acolhe o que é obscuro e, por vezes, monstruoso – mas, sobretudo, o que é queer.

Depois de ter sido apresentada em Madrid, numa primeira versão, a exposição é aqui desenvolvida com novos acrescentos. “Há uma peça concebida especificamente para o espaço e que traz o elemento da água que corre, que é uma metáfora sobre a fluidez dos corpos, nomeadamente o corpo queer”, explica João Mourão. “Falamos de identidades que estão sempre a procurar caminhos para sobreviver. O que vemos na exposição é também essa narrativa da procura do lugar, de uma chosen family que serve de suporte e que acolhe nessa construção do eu.

Ler a notícia completa no Observador ›

Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

Mais de Observador

Ver tudo ›

Mais em Últimas

Ver tudo ›