Viale Moutinho, o escritor do claro difícil
“Olha, meu amigo, afinal, este mundo não é exactamente aquilo que estávamos à espera.” A frase, entre aspas, assinada “JVM”, acolhe o visitante do blogue com o seu nome , José Viale Moutinho, como o texto que, designado de “arremedo autobiográfico”, leva o título “Poderei não ter sido assim”.
A data da escrita coincide com os 60 anos “ainda agora cumpridos”, em que, garante, continua “apaixonado e não só pela vida.” Mais de duas décadas depois, a jornalista a quem coube decifrá-lo para esta espécie de obituário vai encontrar ali as pistas que este madeirense, nascido a 12 de junho de 1945, “quando os canhões começavam a calar-se pela segunda vez em todo o mundo”, lhe entendeu deixar.
Que diz de si Viale? "Andei pelo mundo, entre bruxas da Chã de Ferreira e meigas galegas, escutei histórias mágicas por toda a parte, até contei caveiras nos tzompantlis e bailei o danzón em Veracruz, escrevi muitos livros, e apetece-me continuar a escrevê-los.
Vivi intensamente o 25 de Abril, conheci a Liberdade. (...) Poderia contar mais coisas, mesmo sobre amigos deportados em campos de concentração nazis, mas para quê? E aqueles que ficaram pelo caminho?" Mas vamos ao início: fruto da união de “um homem do Douro, extraordinário efabulador, desinteressado das vinhas e dos olivais da família, dele” e de “uma inglesa, que levara como dote, uns brincos de sua mãe e memórias de uma riqueza palaciana, carregada de preconceitos, inclusive de classe”, viveu desde cedo, no Norte, “entre montes de livros” e o fascínio pelos mistérios — representado pelo quarto dos santos da casa dos avós, onde ardiam velas num oratório, mais um “santíssimo exército” de santos e anjos “a vigiar a fé” da avó e de “todas as velhas murmuradeiras”.
Pode ter nascido aí, nesse quarto de relíquias, o desígnio de investigar etnologia de que fala o comunicado do Presidente da República , José António Seguro, lamentando a sua morte: “Nascido no Funchal, José Viale Moutinho foi jornalista durante mais de trinta anos na cidade do Porto (no Jornal de Notícias e no Diário de Notícias), além de romancista e contista que incorporou a tradição narrativa camiliana, bem como etnólogo, historiador (nomeadamente da Guerra Civil espanhola), poeta, cronista e antologiador.
Para lá da sua bibliografia literária, que lhe valeu prémios como o Rosalía de Castro, o D.
Dinis da Casa de Mateus ou o da Fundação Inês de Castro, Viale Moutinho dedicou boa parte do seu trabalho à leitura e à divulgação de autores portugueses do século XIX, como Camilo Castelo Branco (a quem dedicou uma valiosa fotobiografia).
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