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Era feliz se ganhasse o Euromilhões?

Observador ·
Era feliz se ganhasse o Euromilhões?

Para alguns, o mês de setembro é apenas uma continuação do que já estava a ser feito, mas para muitos é uma lembrança de tudo aquilo que ainda falta conquistar. Nas férias, o ritmo muda, por umas escassas semanas deixamos de procurar os mesmos estímulos e as recompensas do dia passam a ser outras: a satisfação que sentimos quando mergulhamos no mar; o calor suave da brisa de verão ao entardecer; as noites longas e uma sensação de eternidade que se estende até à manhã seguinte, sem horas para acordar nem mais um dia de trabalho simétrico a todos os outros que o antecederam.

Com o regresso ao trabalho, às aulas ou simplesmente à rotina, a falta de vontade de recomeçar caminhos já percorridos pode misturar-se com ansiedade perante o futuro, falta de entusiasmo, medo de falhar ou até com uma sensação de “estou a fazer isto tudo para quê?”. Por outro lado, o regresso à rotina pode desencadear um desejo súbito de conseguir alterá-la e trazer pensamentos típicos de ano novo como “agora é que vai ser” ou “até dezembro sou outra pessoa”.

Na vida, temos muitos momentos “agora é que vai ser”. Até poderia parecer patético se não fosse normal, afinal, trata-se de uma resposta básica do ser humano, um instinto complexo de sobrevivência que de uma forma simplista podemos explicar com o sistema dopaminérgico, responsável por controlar e influenciar grande parte das nossas motivações, bem como pela necessidade de procurar prazer e recompensas.

Seja por defeito de fabrico dos nossos neurotransmissores, seja pelo quão útil já foi ter uma resistência férrea para procurar alimento e segurança nos lugares e nos momentos mais imprevisíveis, a verdade é que a caçada mudou muito. Estaremos condenados a procurar sempre mais? Será que vai chegar aquele momento de satisfação plena que tanto ansiamos? A casa vai ser finalmente aquela em que nos vemos a envelhecer; o carro vai ser aquele em que cabe toda a família; o emprego vai ser aquele que nos enche as medidas dos bolsos e da concretização profissional; o companheiro amoroso vai ser a alma gémea que prometiam as ilusões ilimitadas da criatividade humana? Será que chega esse momento em que pousamos a cabeça no travesseiro para adormecer sem ansiedade sobre o que falta conquistar no dia de amanhã?

Os optimistas talvez acreditem que esse dia vai chegar, os pessimistas que o nosso cérebro é uma maldição incapaz de se satisfazer e os mais curiosos que tem de haver uma resposta para a permanente insatisfação do ser. E procuram explicá-la desde sempre, cada um à sua maneira. Na sua segunda carta a Lucílio, Séneca argumenta “Não é pobre quem tem pouco mas sim quem deseja mais (…) Que importa o que temos no cofre … se fizermos as contas não ao que possuímos mas ao que queremos possuir?” Volvidos mais de dois mil anos, os psicólogos e neurocientistas ainda se debruçam sobre o mesmo tema, talvez sinal de que os tempos não nos mudam assim tanto. Mas não é por ingratidão ou por pura teimosia que aquilo que temos nunca nos parece suficiente. A busca constante por uma nova recompensa é mais do que um capricho, é quase um traço biológico, um estado base, para o qual hoje até temos um nome: adaptação hedónica.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

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