“Vibes” como programa eleitoral
O vosso cronista prefere não promover opiniões publicadas noutros espaços que não este que a CNN Portugal gentilmente me proporciona semanalmente. Porém, desta vez torna-se necessário fazer uma exceção. Em dezembro de 2024, argumentei que “Não deve ser porque o ‘preço dos ovos’ está mais alto que a escolha mais lógica é eleger autoritários e populistas radicais”, texto que pode ser lido aqui .
Para evitar acusações de autoplágio , incluo aqui apenas a tese do artigo de opinião. Quando nos confrontamos com partidos de extrema-direita, como o Partij voor de Vrijheid (PVV), nos Países Baixos, o Freiheitliche Partei Österreichs (FPÖ), na Áustria, e a Alternative für Deutschland (AfD), na Alemanha, ou com Trump, Farage, Ventura e Le Pen e os seus projetos políticos, algo devia estar presente (e agora citando): “não se pode abandonar o projeto de viver numa democracia representativa, em prol de populistas radicais e charlatões políticos, para termos ovos mais baratos”.
Porém, neste momento, já nem é o preço dos ovos a variável operante: agora são as “vibes” que comandam o voto. Respostas emocionais vindas de intuições ancoradas em políticos e nas suas mensagens políticas. Esta é a nova forma preferida de definir a identidade política. Diferente das “perceções” (e quem não se lembra deste recente debate em Portugal), que, por sua vez, baseiam-se em leituras ou interpretações (subjetivas) da realidade económica, social ou comunitária. A segunda ainda pode ser confrontada com factos e estatísticas; para a primeira, não parecemos ter ainda uma resposta.
Um senhor de barba branca e turbante sentado num banco de parque? Uma jovem de cabelo violeta com um crachá arco-íris na mochila? Um post nas redes sociais sobre mulheres transexuais? Um atleta negro numa equipa de futebol profissional? Um reparo por causa de uma piada misógina? Uma bandeira da Ucrânia pendurada na janela do vizinho? A solução é votar em extremistas, em radicais conservadores, em populistas de extrema-direita ou em charlatões que prometem resolver o impossível “a partir do dia 1”: resolver estes “problemas sérios que afetam a minha vida”.
Quando o voto deixa de depender da correspondência entre aquilo que é dito e aquilo que é verificável, deixa também de ser necessário convencer o eleitor de que uma determinada afirmação é verdadeira. Basta que ela corresponda à sua “vibe”. Numa era que o vossa cronista define como “política pós-factos e pós-vergonha”, na linha do trabalho da socióloga Ruth Wodak, os líderes destes partidos deixaram de ter necessidade de trazer para o debate político relações ténues entre factos e suposições. Ou tentar criar confusão entre temas. Ou apresentar caracterizações erradas da realidade (os famosos factos alternativos ).
Agora pode-se mentir, confabular, prometer resolver todos os problemas e não ter vergonha quando se é apanhado a contradizer-se, a ser irrealista ou descaradamente oportunista. Porque é tudo “vibes”.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.