A notícia que se repete e um problema que não acaba
A agenda jornalística constrói-se alicerçada em valores-notícia que, de certo modo, determinam a força de noticiabilidade de um acontecimento.
A continuidade será talvez um dos valores-notícia menos intensos, porque falha justamente aquilo que determina a força de uma notícia: a novidade.
No entanto, há um facto que não tem saído da ordem do dia e, sempre que ressurge, ocupa, com toda a pertinência, o topo dos alinhamentos: a subida do preço dos combustíveis.
Quando parece que o país já não aguenta mais uma subida de preços, eis que surge mais outra.
Acontece hoje, como aconteceu inúmeras vezes num passado recente.
E todos sabemos que a subida se faz em modo mais musculado e mais frequente do que a descida.
Por isso, quando, no final da semana, os média noticiosos voltaram a noticiar novos aumentos, não faltaram reações incrédulas.
No “Jornal de Notícias”, que anunciava “novo recorde”, a Associação de Revendedores de Energia, Combustível e Estações de Serviço exigia ao governo mais alívio na carga fiscal sobre os combustíveis e alguns anónimos denunciavam a entrada de combustível por contrabando a partir das zonas de fronteira com Espanha; no “Correio da Manhã” salientava-se que estes preços pressionam bastante a inflação, mesmo que o Banco Central Europeu insista na subida das taxas de juro.
Estes são modos de acrescentar outras leituras a um facto que, na sua formulação imediata, é linear: a escalada de preços torna os nossos dias incomportáveis.
Mas isso também acontece por causa da nossa dependência do carro.
É por isso que a entrevista que o JN publicava nas últimas páginas da edição de sábado com o urbanista franco-colombiano Carlos Moreno cria um outro patamar naquilo que é notícia, porque nos obriga a refletir no modo como gerimos a nossa vida individual e coletiva.
O título era provocador, tal como deve ser um bom título: “é difícil mudar a mentalidade dos portugueses sobre o uso do carro”.
Moreno falava sobretudo dos países do Sul da Europa onde o automóvel não é apenas um meio de transporte, mas transporta também consigo um valor social que o seu proprietário quer projetar como imagem de si próprio.
Daí a atração por veículos de gama alta e, consequentemente, de elevado consumo.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.rtp.pt — o conteúdo pertence a RTP Notícias.