Fabian Figueiredo deixa testemunho sobre violência: "A minha história"
N os últimos dias vários casos de violência familiar e abandono têm vindo a público. As agressões não têm dia e hora marcado e prolongam-se na maioria dos casos, que, muitas vezes, resultam em mortes. O deputado único do Bloco de Esquerda (BE), Fabian Figueiredo, decidiu contar, num artigo publicado no Expresso , como a sua história é uma das de milhares de crianças que vivem em contexto de violência.
Apontando que há muitos olhos fechados para a violência que pode até estar na porta ao lado, o bloquista começa por contar que cresceu numa casa "onde as coisas raramente estavam bem. Onde o erro não era permitido e a falha se pagava".
Contando que "qualquer coisa - uma nota, uma resposta a destempo, algo involuntariamente mal feito - podia desencadear gritos e recriminações absolutamente desproporcionais, ou o seu contrário, o silêncio imposto como castigo, que doía de outra maneira e durava mais", Fabian Figueiredo aponta como o ambiente em que cresceu fez com que aprendesse a ler uma sala antes de entrar, clarificando que não se trata de um "talento": " Aprendi cedo a ler o ar de uma divisão antes de entrar nela. As crianças que crescem assim tornam-se sismógrafos: medem a pressão dos passos no corredor, o tom de uma chave na fechadura, a qualidade de um silêncio. Não é talento. É sobrevivência ."
No texto que poderá ler na íntegra no semanário, Fabian Figueiredo fala ainda sobre as vezes que fugiu de casa - não tendo sido o único -, mas também sublinha que "o caminho em que a violência nos mete não é uma sentença, ainda que seja um declive, e que pedir ajuda, tarde como seja, não é fraqueza, é força".
O bloquista conta que, na família, houve quem fosse espancado. E recorda, deixando o alerta: "A nossa mãe assistia, muitas vezes impotente, à violência, nas suas diversas manifestações, que não conseguia travar - ela própria multiplamente humilhada, controlada, sem os meios materiais para sair de onde estava. A violência raramente é só uma mão levantada. É também uma conta bancária que se controla, uma dependência que se fabrica, uma porta que se tranca por dentro".
O bloquista aponta que há "muitos mais episódios" do que aqueles que vai descrevendo no artigo, admitindo que há alguns que ainda não consegue "processar".
Fabian Figueiredo aborda ainda o tema do perdão: não tanto sobre perdoar quem leva a cabo atos de violência, como também quem os sofre, incluindo ele mesmo. "O meu pai foi, ele próprio, vítima de uma violência que não escolheu, e reproduziu em nós aquilo que lhe fizeram, como quem só sabe entregar a moeda com que foi pago. Perdoei-o há muito porque percebi que do ressentimento não nasce nada que mereça viver. O mais difícil, descobri, não é perdoar quem nos feriu", escreve, acrescentando: "É perdoarmo-nos a nós próprios: por termos sobrevivido da única maneira que sabíamos, por termos reprimido em vez de escutado, por termos fugido em vez de enfrentado, e por termos demorado tanto tempo a ver o que a infância tinha deixado instalado dentro de nós, como nos quebrou. Por não termos conseguido mais cedo partilhar os nossos pesadelos e enfrentar os nossos demónios".
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