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Os redondos frutos de Outono

Observador ·
Os redondos frutos de Outono

Nas cercanias do templo de Naksana, onde os pinheiros aprendiam com o vento a arte de se inclinarem sem perderem a raiz, viveu outrora Yong Ku, pintor e calígrafo. Mandara levantar para si uma casa de quatro alas, não por riqueza nem por capricho, mas porque lhe parecia que cada estação precisava de uma morada própria, de uma janela onde a luz pudesse demorar-se sem ser confundida com a de outro tempo.

Vivia ali com um gato de pêlo escuro, cuja indiferença parecia a mais alta forma de sabedoria, e contemplava, das três janelas e da porta, a lenta coreografia do mundo: a chuva inclinando as suas agulhas sobre o musgo; as folhas de Outono que, antes de caírem, ensaiavam no ar uma derradeira liberdade; a migração dos gansos, escrevendo no alto frases que ninguém acabaria de ler; e o sol, essa mão sem corpo, ocupada a dourar a erva, a retirar-lhe a humidade, a fazer de cada lâmina um breve espelho.

A casa, mergulhada no odor resinoso do pinhal, possuía quatro fogareiros, um para cada ala, e, do lado de fora, uma latrina e um pequeno miradouro, onde Yong Ku quase nunca ia. Talvez soubesse que há vistas que, pela vastidão que prometem, nos distraem daquilo que de facto nos cabe ver: o desenho de uma gota na madeira, uma formiga que atravessa o pó, a sombra breve de uma asa sobre a página.

Tão íntima era na Coreia a memória do País do Meio que Yong Ku tomara como sua a antiga ciência chinesa das cores e dos climas. Decidira escrever quatro livros, um para cada porção do ano; e, para que a escrita não traísse a matéria que desejava acolher, impôs-se uma disciplina que muitos julgaram excessiva. Em cada estação, viveria apenas na ala correspondente. Ali comeria, dormiria, prepararia a tinta, moeria os pigmentos e meditaria, como se cada dia fosse uma página que exigisse a sua própria caligrafia.

No Inverno, não consentia que lhe entrassem no pensamento as cigarras do Verão. No Outono, recusava-se a olhar o mundo com os olhos de quem espera a primeira flor de ameixoeira. Parecia-lhe que cada estação transportava uma tonalidade moral, uma respiração, uma espécie própria de silêncio; misturá-las seria semelhante a pôr água de poço em vinho, ou a pedir à neve que recordasse o sabor das romãs.

Aos pés do leito, sobre uma esteira de pele de gamo, repousavam poucos livros: Patanjali, Valmiki, os poemas de Heo Gyun, os contos de Cho Shik e uma colecção de sutras, pequena, bastante para que uma vida inteira se deixasse interrogar. Os livros não ocupavam muito espaço. Os verdadeiros livros nunca o ocupam. Dormem junto de nós como animais silenciosos e, quando chega a hora, levantam os olhos.

Yong Ku estudara o Ming Tang, a Casa do Calendário dos imperadores chineses, uma construção feita para receber a ronda do sol e para a devolver, transformada em ordem, aos homens. Diziam que a luz atravessava aquele vestíbulo segundo a eclíptica, e que as paredes, durante o ano, aprendiam sucessivamente o ouro da Primavera, a plenitude branca do Verão, a ferrugem do Outono e a claridade quase mineral do Inverno.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

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