Falemos do Ruído
Esta semana, depois de um clip da série Ruído intitulado “Corpo de Cristo” ter entrado nas redes sociais, a polémica instalou-se. O sketch é, ou não, uma “blasfémia” e uma ridicularização inaceitável da Eucaristia? Imagino que muitos gostassem de um texto inflamado, mas esse não pode ser o contributo do Cristianismo para o debate. Peço desculpa pela desilusão. O trabalho da Igreja é cruzar sensibilidades, recusar reducionismos, ajudar a integrar e procurar sinais, ainda que incompletos – talvez, não existam sinais de outra natureza – do Reino. No fundo, tentar salvar a proposição do próximo. Neste caso, reconhecer, em primeiro lugar, que nunca existe um mau motivo para falar de arte.
Entendo quem se sentiu ofendido, quem achou demais, quem não gostou ou acredita que se tratou de uma rábula de mau gosto. Acho, até, que quem se sentiu assim não o fez por falta de humor ou rigidez. Efetivamente, a Eucaristia não é um gesto social entre outros. Para os católicos, a eucaristia não é apenas uma ideia, uma recordação ou um símbolo, mas Jesus em Pessoa que se entrega, para que nós, sendo muitos, nos tornemos um só pão e um só corpo. Além disso, é inegável que quem não gostou tem todo o direito de se manifestar, reagir e expor a sua opinião. Isso também é uma exigência da liberdade.
No entanto, acredito que é possível fazer uma avaliação diferente. Muitos cristãos católicos gostam do Ruído , são fãs da série, viram o episódio inteiro em direto, perceberam o conteúdo no seu contexto e entenderam que há ali uma sátira não à comunhão em si mesma, mas ao insólito que é, no nosso código social ocidental, um gesto tão íntimo, comportando possíveis embaraços e preconceitos. Aliás, creio que, no seu todo, o Ruído é cartografia essencial do nosso ridículo moderno, da nossa vaidade cosmopolita, dos nossos contraditórios pruridos sociais e das nossas inflamadas compulsões para o cancelamento. Em certo sentido, se o Cristianismo é a tradição religiosa que procura por em causa o orgulho, é possível defender que o trabalho do humorista é um precioso contributo evangélico para esse descascar, às vezes doloroso, do nosso ego.
Ora, se não concordo que quem não gostou seja apelidado de pacóvio ou ignorante, também acho justo que todos aqueles que gostaram sejam respeitados, sem serem vistos como traidores. Não devemos exigir a quem não gostou que «coma a sopa toda», nem devemos iniciar uma purga puritana.
Um argumento muito usado nestas ocasiões passa por evidenciar que «com os muçulmanos eles não se metem».
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.