O PRR apoia a imbecilidade
Agora que vos prendi a atenção com um título próprio dos tempos do clickbait já posso desiludir-vos e confessar que esta prosa versa sobre livros, em particular a recente edição nacional de O Novo Elogio do Imbecil , de Pino Aprile (Bookout, 2026), que retoma e actualiza uma obra que vem sendo (re)editada nos últimos 30 anos (edição nacional anterior da D.
Quixote, em 2005, com o título Elogio do Imbecil ) com assinalável sucesso, visto ser a imbecilidade um fenómeno que se tem massificado em vez de regredir, por muito que se fale em revolução na circulação e acesso à informação e ao Conhecimento.
A referência ao PRR deriva de trazer esta edição apostos os símbolos do referido PRR, da República Portuguesa e ainda da Next Generation EU (União Europeia), que apoiaram, financiando, a publicação desta simpática e lúcida obra.
O que nos revela duas coisas: que, afinal, o PRR apoiou obras úteis e que, atendendo ao preço (16,4 euros por 150 páginas), os editores não são nada imbecis.
Mas deixemo-nos de digressões e concentremo-nos no principal, que é a tese do autor de “que a maioria dos homo sapiens sapiens se comporta como imbecil e que esse é o caminho da espécie”, mas também “na confirmação adicional e poderosa de uma das principais características da estupidez: a sua natureza epidémica e a velocidade crescente com que se espalha” (Prefácio, pp.
9-10).
Tese esta que entronca nas constatações de outros autores que, em especial a partir do início do século XX e muito antes da proliferação das redes sociais que exponenciaram e deram uma visibilidade global ao fenómeno, se debruçaram sobre a imbecilidade e estupidez crescente da nossa espécie, cuja capacidade intelectual terá, enquanto grupo, entrado num declínio potencialmente irreversível, de que a rendição às inteligências artificiais é apenas um sintoma.
Cipolla teorizou as suas muito glosadas leis da estupidez de forma magistral, no que seria seguido recentemente por Jano Garcia ( El Triunfo de la Estupidez , 2024) quanto ao maior perigo para a Humanidade da estupidez em relação à maldade, mas já antes Robert Musil nos tinha tentado ajudar a reconhecer um estúpido num mundo cheio deles (Ideias de Ler, 2023) e Paul Tabori ensaiara uma Ciência Natural da Estupidez (Portugália, 1963).
O tema não é novo, mas parece ter ganhado urgência quando observamos a chegada ao poder de figuras que parecem orgulhar-se da sua ignorância, da sua falta de bom senso e sem qualquer aparência de embaraço ao enunciarem ou praticarem o que em outras épocas seria considerada vergonhosa estupidez.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.