Miriam Toews: duas irmãs à espera do fim
É um romance sobre duas irmãs, em cima desta premissa: Elfrieda quer terminar a vida; Yolandi, a narradora, não quer perder a irmã. Já são várias as tentativas de suicídio e, desta vez, Yoli volta a Winnipeg, acompanhando Elf no hospital. E agora parece mesmo o fim da linha: Elf pede-lhe que a leve à Suíça para poder recorrer à eutanásia. Com ensaios cada vez mais intensos e recorrentes, empilhando-se na memória familiar, Yoli começa enfim a perguntar-se se o caminho não terá mesmo de ser esse.
As duas cresceram no centro do Canadá, numa província de pradarias, numa comunidade menonita, entre religião, música e livros. Grão da mesma mó, o crescimento fez delas pessoas diferentes: Elf veio a ser uma pianista conceituada, casou com Nic, viajou por todo o mundo; Yoli escreve romances de cowboys, está no segundo divórcio a tentar acabar um novo livro. Isto, claro, parece paradoxal, já que a vida de Yoli é caótica e Elf tem uma vida de sucesso. A oposição é demasiado cirúrgica para não saber a ironia, e Toews joga com ela em permanência. Yoli é desorganizada, escolhe os homens errados, escreve livros de segunda categoria; Elf é um talento em bruto, alguém capaz de criar beleza, que parece estar noutro nível artístico e intelectual. Ainda assim, é a ela que a existência custa – é ela que sente que viver é sofrer. Logo isto já desconcerta a priori : ter todos os hipotéticos elementos para a felicidade parece não bastar.
Enquanto se desenrola a história, o leitor tem acesso à intimidade das irmãs, isto é, à intimidade da relação entre ambas. Acompanhamo-las num diálogo permanente, e o romance recupera a infância, com os episódios familiares a comporem-no. Vamos assistindo às histórias em comum, às piadas, à memória da vida antes dos internamentos de Elf, ou seja, à partilha de um território afectivo. O presente é descrito, e ei-lo em frente ao leitor, mas está sempre permeado pela memória, o que faz com que o que nos é dado do presente tenha sempre o passado lá metido. Vemos as duas, por isso, não só com o que são, mas também com o que foram.
E, numa prosa elegante, sem grandes gorduras, também há humor. Yoli vai fazendo perguntas, e o leitor vai atrás, perguntando também, quase incapaz de perceber se foi Elf que enlouqueceu, se foi o mundo. Pelo meio, há um hospital psiquiátrico, com o seu jargão, transformando a linha complexa de uma biografia num caso clínico. À medida que a narrativa avança, Elf tacteia possibilidades, tentando perceber se o desejo de morte vem da depressão, de questões hereditários, de trauma, e quanto mais procura mais se perde. O romance, que felizmente não oferece respostas, acaba por existir à volta destas perguntas, e fá-lo entre constantes quebras de tensão, num quarto em que a morte parece estar à espreita.
Livro: “Pequenas desgraças sem importância” | Autora: Miriam Toews | Tradução: Alda Rodrigues | Editora: Alfaguara | Páginas: 368
A família, convém dizer, já conhece a tragédia: o pai das duas, afinal, pôs fim à própria vida. Yoli também dá espaço a esse pai. Trá-lo para a narrativa, olha para a infância, questiona a decisão da irmã.
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