A propósito das fragatas, convém lembrar que os negócios militares potenciam a incúria e corrupção
O problema essencial é outro: o anunciado multimilionário negócio de armamento continua envolto em opacidade e já com guerras de fiscalização. Atrevo-me até a dizer que só não ficará com um pé atrás quem não conheça o histórico dos esquemas que em Portugal – e lá fora – andam de mão dada com as aquisições militares, um mundo de pouca transparência que é considerado pelos especialistas como dos mais propícios à corrupção. Agora, através de um programa das União Europeia, o SAFE (o Security Action for Europen , destinado a financiar investimentos através de contratação conjunta), Portugal tem muito dinheiro emprestado para gastar e gastar rapidamente: são 5,8 mil milhões de euros para modernizar as Forças Armadas. Isso e já se fala de um investimento de cerca de 5 mil milhões de euros (fora do SAFE) para renovar a frota que é hoje composta por 28 aviões F-16.
Assim, a curto prazo, pela frente temos a perspetiva de avultados negócios de material militar como nunca se fizeram em Portugal. Já anunciado está o executive arrangement (um acordo preliminar) que prevê 3,9 mil milhões de euros para comprar três fragatas italianas FREMM EVO, valor que representa quatro vezes mais o montante pago em 2004 pelo estado português para a aquisição de dois submarinos alemães, um negócio que ainda hoje está na memória dos portugueses devido à longa investigação criminal que acabou arquivada pelo Ministério Público. Dirão os mais confiantes que esta longínqua aquisição foi tratada com uma empresa privada pouco escrupulosa, que havia intermediários manhosos pelo meio e alguns até ligados ao grupo GES/BES, que era habitual combinar contrapartidas financeiras e tecnológicas para inglês ver, que as entidades que deviam fiscalizar e investigar contratos e suspeitas tinham poucos meios, enfim, que o País era outro e os tempos também.
Quem se quiser contentar com isto, está a ser simplesmente muito ingénuo. Repare-se naquilo que já temos bem à vista como propiciador de riscos: num setor altamente propenso à corrupção e outro tipo de crimes, preparam-se negócios multimilionários acelerados por um programa de urgência que abrange um sem número de equipamentos militares, das já citadas fragatas para a Armada aos novos veículos médios de combate e blindados e à modernização da frota dos Pandur para o Exército.
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