Jogar à sueca com o povo popular
Costuma o povo dizer que há duas coisas certas na vida: que nascemos e que morremos. No futebol, durante um longo período, houve uma terceira: a de que, no fim, ganhava a Alemanha. Esta última mostra-nos que, tirando as duas anteriores, nada na vida é muito certo. É por isso que a profecia de uma inevitável viragem para o iliberalismo nativista – esse jargão de Ciência Política para designar um tipo de regime político em que os pilares da democracia são constrangidos ao seu núcleo, a vontade popular é vista como permissão sem limites e onde o nacionalismo étnico-cultural é retomado – é tão sedutora quanto fatalista. A Alemanha deixou de dominar o futebol e deu lugar ao samba nos relvados. Mas também o Brasil deixou de ser o país do futebol e ficou apenas com o Carnaval.
Nesse sentido, a viragem para a dita direita radical é mais um sintoma de um turbilhão social, político, económico e cultural que tem abalado as sociedades ocidentais do que uma adesão convicta a um programa ideológico. Até porque, convenhamos, esta direita radical não tem propriamente um programa ideológico uniforme de governo; é, antes, uma gramática alargada que conjuga uma divisão entre “nós” e “eles” – ressentimento contra as elites e contra as mudanças sociais, económicas e culturais promovidas pela imigração em massa.
É aqui que entram as eleições legislativas na Suécia, deste fim-de-semana. À hora a que escrevo, o resultado ainda é preliminar: 176 deputados para o bloco de oposição contra 173 para a direita, com votos externos e tardios ainda por contar; a contagem desses votos prossegue na quarta-feira e o resultado final oficial só deverá ficar fechado no fim de semana.
A primeira leitura que se nos impõe é a de que a eleição parece menos uma ressurreição ideológica da esquerda sueca do que uma rejeição muito estreita da etapa seguinte da experiência iniciada em 2022: passar de uma direita governamental apoiada pelos Democratas Suecos para um governo em que a direita radical nativista pudesse entrar formalmente.
Dizer que a esquerda venceu é uma narrativa que funciona para o algoritmo daquela área política. No entanto, a verdade conta outra história: os social-democratas continuam a ser o maior partido, mas caíram para cerca de 28,1%, abaixo dos 30,3% de 2022, sendo um dos seus piores resultados históricos. Numa linguagem novamente futebolística: ter menos pontos do que em épocas anteriores pode dar o título na mesma, mas é um sintoma de que algo não vai bem. Em rigor, a história da noite é menos Magdalena Andersson a ganhar do que Jimmie Åkesson a perder: o líder dos “Democratas” – partido da direita radical, com raízes na extrema-direita – caiu de 20,5% para cerca de 17,6%.
As aspirações de Åkesson caíram estrondosamente, como um bule de chá no meio de um salão de baile. Para os “Democratas”, a meta não era apenas condicionar o governo, era governar. Isto significa, na verdade, que depois de ganharem a agenda política perderam os votos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.