“Soberania digital tem várias camadas e talento é uma delas”
A soberania digital tem várias camadas, sendo um talento uma delas, afirma responsável pela área de consultoria de tecnologia da KPMG, Rui Gonçalves, em entrevista à Lusa, defendendo que o país deve criar um modelo para o reter.
O tema da soberania digital tem estado na ordem do dia, nomeadamente com a aceleração da inteligência artificial (IA), com a União Europeia a defender medidas para o seu reforço.
“ A soberania não é só ter um modelo “, passa também “ pela capacidade de poder escolhê-los “, aponta Rui Gonçalves.
Contudo, há outros níveis, “nomeadamente a gestão do controlo dos dados e a capacidade de operar sobre pressão política, que é onde se pode jogar o jogo da soberania europeia”, refere o responsável que integra o ‘Global AI Council’ [conselho global de IA] do grupo.
“ O jogo europeu pode-se ganhar na camada de aplicação, pode-se ganhar na camada de utilização dos dados setoriais, no ‘open source’ [código aberto] e, eventualmente, no ‘compute’ partilhado, ou seja, na capacidade de computação partilhada, mas dificilmente a curto prazo, na corrida dos mil milhões e triliões de GPU [unidades de processamento gráfico] que a Europa já perdeu e que se nós vamos então a nível mais capilar de países como Portugal (…) é utópico pensar nisso “, prossegue.
Para o gestor, o que faz sentido trabalhar é nas camadas da soberania.
“ A soberania tem várias camadas, tem os ‘chips’, tem a capacidade de computação, tem os modelos, tem os dados, tem as aplicações e tem o talento “, elenca.
Por exemplo, “ a Europa, e Portugal em concreto, nos chips e na capacidade de computação de fronteira, que é onde estão as dependências estruturais, dificilmente teremos alguma capacidade de ser soberanos e independentes “, salienta Rui Gonçalves.
A Europa tem a francesa Mistral, criada em 2023 e que desenvolve modelos de linguagem de grande escala (LLM) concorrentes do ChatGPT.
A Mistral, que é aquilo que “mais se aproxima” do modelo de fronteira [mais avançado], “não está difundida, nem tem a capacidade que tem a Anthropic de se posicionar”, refere.
Contudo, “há mecanismos que permitem minimizar o risco de dependência”, diz, recordando que o talento é uma camada de soberania.
“ Continuamos a formar talento de classe mundial, e muito do nosso talento sai de Portugal por causa do acesso ao primeiro ‘layer’ [camada] de soberania, que é a capacidade de computação e a possibilidade de trabalhar em projetos de fronteira “, enfatiza Rui Gonçalves.
Agora, “se nós trouxermos para Portugal os modelos de trabalho à distância mais tradicionais, que são aqueles de retenção de competências baseados apenas na extração do valor dessas competências, onde se utiliza uma obra barata, isso vai-nos tornar totalmente dependentes”, adverte.
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