Quimioterapia com "efeitos secundários mínimos". A descoberta na luta contra o cancro que tem a mão de duas portuguesas
É macio, injetável, biodegradável e feito com compostos naturais. São as principais características do novo hidrogel desenvolvido por investigadores do Instituto de Investigação Vall d’Hebron (VHIR) que pode simbolizar um verdadeiro ponto de viragem na luta contra o cancro .
Composta por celulose e quisotano, esta formulação local funciona como um “sistema de depósito” que vai libertando o fármaco da quimioterapia “pouco a pouco, durante um longo período de tempo”, com precisão junto da zona do tumor.
É o que explica à CNN Portugal a principal investigadora do projeto, Diana Fernandes, 39 anos, doutorada em Tecnologia Farmacêutica, clarificando desde logo uma das principais vantagens da descoberta: ao ser administrado diretamente no tumor, existe uma redução significativa da toxicidade sistémica associada à quimioterapia convencional.
“A pessoa deixa de ter de receber a quimioterapia pela corrente sanguínea, não tem de fazer um tratamento sistémico e isso faz com que o fármaco não se espalhe por todo o corpo, por isso os efeitos secundários seriam mínimos”, continua.
Os fármacos utilizados nesta terapêutica estão encapsulados dentro de nanopartículas, detalha Diana Fernandes. Isto porque os fármacos antitumorais “normalmente são hidrofóbicos”, ou seja, tendem a repelir a água. É por isso que são incorporados no hidrogel protegidos por uma cápsula, que, mesmo tendo um núcleo hidrofóbico, possui uma superfície hidrofílica - com maior afinidade por substâncias aquosas.
É injetado na área de interesse num formato líquido (à temperatura ambiente) e, ao entrar no organismo, liberta as nanopartículas com os fármacos. Também é este o momento em que adquire a textura de gel, devido à temperatura corporal.
Em modelos pré-clínicos, o sistema conseguiu libertar 70% do fármaco ao longo de 14 dias, mantendo a sua estrutura durante mais de três semanas em condições fisiológicas. O objetivo é estender ainda mais essa libertação, até aos três meses.
Ao fim desse tempo, o produto já estará degradado e, por ser biodegradável, começa a ser eliminado pelas vias de eliminação normais do corpo, como a urina e as fezes.
Apesar de poder ser colocado no decorrer de uma cirurgia, a aplicação do tratamento não implica nenhum procedimento invasivo ou operação extra, esclarece a especialista.
Na maioria das quimioterapias convencionais, vão sendo injetadas grandes quantidades de fármaco diretamente numa veia, durante várias horas. Como explica Fernanda Andrade, 40 anos, também investigadora do estudo e professora assistente na Universidade de Barcelona, em todos os ciclos, esse líquido distribui-se por todo o corpo e só uma pequena parte da medicação chega realmente ao tumor. É por isso que a quantidade administrada tem de ser grande, não só porque as células tumorais são mais resistentes, mas especialmente porque tem de ser maximizada a probabilidade de chegar ao tumor uma porção eficaz de medicamento.
As células cancerígenas são eliminadas, o problema, nota Fernanda Andrade, é que as saudáveis também. Ao entrar em contacto com o fármaco, as células dos órgãos saudáveis vão eventualmente morrer ou, no mínimo, ficar danificadas.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.