Ana Catarina Mendes: Governo de Montenegro permitiu "aumentar um sentimento negativo sobre a imigração que nunca houve em Portugal"
A ex-ministra socialista com a tutela da imigração acusou o seu sucessor, António Leitão Amaro (PSD), de ceder ao discurso extremista do Chega e de promover o medo em relação aos imigrantes em Portugal.
“Eu acho que a chegada de Luís Montenegro ao governo e, em particular, a ação do ministro Leitão Amaro, permitiu aumentar um sentimento negativo sobre a imigração que nunca houve em Portugal ”, afirmou numa entrevista à Lusa divulgada este domingo, 18 de outubro, a propósito dos três anos da criação da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), a 29 de outubro, recordando que, durante anos, PS e PSD consensualizaram as políticas de migração.
Elogiou em particular o antigo ministro da Administração Interna social-democrata Miguel Macedo, que “foi o responsável pela transposição da diretiva do retorno” e “procurou criar consensos”, sem “opções radicais ou extremadas”.
Contudo, um acontecimento recente mudou a visão da política migratória do centro-direita: “O aparecimento de um partido extremista em Portugal, que usou a imigração para causar medo ”, o que tornou impossível aos governos socialistas de António Costa encontrar pontos de encontro com o PSD para a política de imigração.
A ex-governante recordou que os sociais-democratas “votaram contra a extinção do SEF” (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que veio a dar lugar à AIMA), sem haver “uma tentativa sequer de perceber o que isto queria dizer” do ponto de vista da política migratória.
Para a ex-ministra, o PSD “renunciou à própria história” neste tema por medo de perder eleitorado: “Julgo que o medo de que um partido extremista tivesse mais votos do que o PSD” levou à construção desta ideia de que “os socialistas descontrolam a imigração” , subscrevendo os discursos de André Ventura.
“Todos os relatórios internacionais saúdam a política de imigração de então”, disse Ana Catarina Mendes, considerando por isso “que falta rigor e às vezes falta estudo sobre as matérias”.
“Eu acho que nós hoje estamos confrontados com um mundo do imediato, do sensacionalismo, onde as perceções se tornam verdade, onde as redes sociais disseminam desinformação”, salientou.
As sociedades lidam, “em termos mundiais, com uma agenda claramente contra a imigração e que encontrou na imigração o bode expiatório para o ressentimento, os males do mundo”.
“A AIMA tem condições para ter orçamento próprio”, deu lucro e “não faz política de integração porque o governo não sabe (…) ou não quer”, acusou a eurodeputada.
Alerta para riscos de abusos Ana Catarina Mendes elogiou a regularização das pendências migratórias, mas lamentou a interrupção do projeto original da AIMA, considerou um "erro clamoroso" o regresso de uma unidade de estrangeiros e fronteiras à PSP e alertou para o risco de abusos de autoridade .
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