Um outsider “pacifista” surpreende a campanha no Brasil. Ele pode avançar em meio ao vendaval político que domina o país?
Nem todo mundo corre o risco de ser varrido pelo vendaval que tomou conta da política brasileira nas últimas semanas. Em meio à crise que atinge o Supremo Tribunal Federal (STF) e às investigações que contaminam os dois nomes favoritos à Presidência, ganhou terreno quem parecia voar abaixo do radar e tenta se mostrar imune à tempestade: o escritor e psiquiatra Augusto Cury, candidato do pequeno partido Avante, que tem se apresentado como um “pacificador” para um Brasil dividido.
Democracias marcadas por polarização extrema e sistemas multipartidários costumam abrir espaço para outsiders quando os polos dominantes ficam associados a escândalos ou crises institucionais. O Brasil não foge à regra, mas a própria disputa já começa a responder se a ascensão de Cury tem condições de alterar o curso da campanha.
O candidato do Avante é um dos quatro nomes que no Brasil de 2026 são genericamente chamados de “terceira via”. O termo, inspirado na linha que teve como principal porta-voz o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, refere-se a todo candidato que tenta romper a disputa polarizada no Brasil, seja qual for o espectro ideológico: na atual disputa, todos estão no campo da centro-direita ou da direita, mas no passado esse papel teve nomes da centro-esquerda.
Cury tem duas características que o colocam em vantagem em relação aos concorrentes, e ajudam a explicar a rápida ascensão com o início da campanha oficial. Primeiro, trata-se de um escritor best-seller, tanto por obras de ficção quanto por livros de autoajuda, o que lhe dá traquejo e retórica para o papel de quem se arrisca na política com boas intenções. Com seguidores nas redes contados aos milhões e alheios às bolhas eleitorais, chega a um público que não costuma acompanhar política cotidianamente.
A outra vantagem, ainda que pequena, é contar com algum espaço na propaganda eleitoral, quesito em que fica atrás de Ronaldo Caiado (PSD), mas à frente de Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), que não dispõe desse direito pelas leis eleitorais brasileiras. Além do horário eleitoral gratuito, partidos com representação mínima no Congresso são obrigatoriamente convidados para participação em entrevistas e debates em rádios e TVs abertas.
Cury fez bom uso dessas situações. Ao contrário dos Estados Unidos, onde debates entre os principais candidatos são quase um ritual obrigatório da campanha, no Brasil a participação é negociada emissora por emissora, e ausências não têm custo formal. Com isso, o primeiro encontro entre candidatos, em 23 de agosto, viu apenas metade dos concorrentes no palco.
Líder nas pesquisas, Lula (PT) discordou da presença de candidatos sem a obrigatoriedade de estarem lá, sob alegação de que isso diminuiria o “nível” do debate, e faltou ao debate. Flávio Bolsonaro (PL) adotou a estratégia de só comparecer se pudesse confrontar diretamente o petista e tampouco apareceu. E inexplicavelmente Zema também desistiu de ir, e responsabilizou Lula pela decisão.
O resultado é que, em vez de dividir o tempo de tela com os líderes da corrida, Cury teve, sozinho, boa parte de um debate de duas horas para se apresentar a um público que mal o conhecia.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.