"Não acho que deva pedir desculpa por dançar. Estou a viver a minha vida"
O percurso político de Sanna Marin foi tudo menos "normal". Aliás, a própria confidenciou que, apesar de ter trabalhado de forma intensa em prol do Partido Social-Democrata da Finlândia durante mais de uma década, "não esperava uma ascensão tão rápida na [sua] carreira, nem era essa a [sua] intenção".
Nascida no seio de uma família de origens humildes, que enfrentava problemas financeiros e com o álcool, questionou, inclusive, se haveria lugar para si na política. Após a separação dos pais, foi educada pela mãe e pela companheira desta, tendo sido a primeira pessoa da sua família nuclear a concluir o ensino secundário. Foi, além disso, a primeira a frequentar a universidade, altura em que trabalhou em mercearias e em lojas de roupa.
Aos 34 anos, tornou-se a mais jovem chefe de governo em exercício no mundo, liderando a Finlândia durante "crises globais históricas", como descreve no seu livro "Esperança em ação: O futuro pertence-nos". E admite que, embora não tenha saudades do cargo em si, tem saudades do poder. "Adoro o poder. Sinto saudades de usar o poder para mudar a vida das pessoas", faz sobressair.
Em Lisboa a propósito do evento Book 2.0 #The Future of Reading, da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), Sanna Marin assinalou, em conversa com o Notícias ao Minuto , que "as mulheres são vistas de uma forma moralista que diminui o seu profissionalismo". A antiga primeira-ministra falou com propriedade, uma vez que sentiu esses preconceitos na pele, com os diversos escândalos em que se viu envolvida.
O episódio que mais tinta fez correr foi, provavelmente, o da dança, pelo qual se recusou a pedir desculpa. Isto porque, como asseverou ao Notícias ao Minuto , "não julgamos os homens por passarem o seu tempo livre a ir a um jogo de futebol ou a um encontro desportivo, a beber cerveja e a divertirem-se com os amigos".
A agora consultora estratégica mostrou-se também preocupada com a estrutura democrática do Ocidente, e em particular dos Estados Unidos, onde os ataques às mulheres e minorias por parte do presidente Donald Trump são reminiscentes do processo que levou a Rússia ao sistema atual. Ainda assim, apelou a que a população - especialmente as mulheres - não se deixe "cair no pessimismo e no desespero, porque podemos fazer coisas incríveis se nos empenharmos nisso".
Não pedi desculpa pelo meu comportamento, porque não vi motivo para tal. É claro que, quando houve alguma ligação com o cargo de primeira-ministra, ou se houve alguém que cometeu erros, assumi, naturalmente, toda a responsabilidade por essas situações. Mas não acho que deva pedir desculpa por dançar ou por me divertir; acho que estou simplesmente a viver a minha vida
Escreveu no seu livro de memórias que, e passo a citar, "uma das coisas que aprendi em primeira mão é que os nossos sistemas políticos têm dificuldade em reconhecer que os políticos também são humanos".
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