Nem toda a imigração é igual
Há uma proposição desconfortável no centro do debate sobre imigração: nem todos os movimentos migratórios representam o mesmo desafio de integração. Quero ser claro sobre o que este argumento não é. Não parte de uma posição de superioridade cultural. É uma posição analítica: o que ajuda, e o que dificulta, a integração numa sociedade concreta, com a sua língua, as suas instituições e as suas normas; uma pergunta sobre o que funciona para o país de acolhimento e para os próprios imigrantes, cuja integração bem-sucedida beneficia a todos.
Há uma segunda questão que a Europa evita: nem todos os movimentos migratórios apresentam o mesmo desafio de integração, e fingir o contrário é negação, não generosidade. Isto não é impressão, é investigação. Um estudo de Kathrin Röder e Peter Mühlau, com dados do European Social Survey, mostra que as atitudes de imigrantes sobre igualdade de género continuam a refletir o nível de desigualdade de género do país de origem: quem vem de sociedades mais desiguais chega com atitudes menos igualitárias, e essa distância só se esbate lentamente, sobretudo na segunda geração. Um estudo de 2023, desenhado precisamente para isolar a origem do efeito da própria experiência migratória, mediu a tolerância dos países de origem através do World Values Survey, importância dada a ensinar tolerância aos filhos e aceitação da homossexualidade, e testou-a nos descendentes, já nascidos na Europa: a tolerância do país de origem prediz a integração económica, cívica e cultural da segunda geração, e predize-a melhor do que o nível de democracia ou de primado da lei desse país.
E uma análise de Ruud Koopmans a oito países europeus mostrou que a combinação de políticas multiculturais com um Estado social generoso (Suécia, Bélgica, Holanda) produziu piores resultados de integração; no mercado de trabalho, na segregação residencial, na criminalidade, do que políticas mais assimilacionistas ou Estados sociais mais contidos (Alemanha, Áustria, Suíça, Reino Unido). A isto soma-se uma segunda camada, sobre hostilidade: a distância face a normas liberais como igualdade entre sexos, liberdade individual, primado da lei civil está associada também ao grau de religiosidade e fundamentalismo de cada pessoa, não apenas à sua religião em si, e isto não é um problema de uma só comunidade. Um outro estudo de Koopmans, cujas posições sobre multiculturalismo são contestadas mas cujo rigor metodológico é reconhecido mesmo pelos críticos, comparou diretamente muçulmanos e cristãos na Europa Ocidental: encontrou fundamentalismo religioso significativo nos dois grupos, com fundamentalistas cristãos a mostrarem hostilidade elevada a muçulmanos e a judeus, tal como fundamentalistas muçulmanos a mostrarem hostilidade elevada a homossexuais e a judeus, o que prediz hostilidade ao “outro” não é a religião professada, é o grau de fundamentalismo. Nenhum destes estudos permite julgar uma comunidade inteira pelos seus casos mais extremos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.