Carlos Neto pede plano para devolver cidades às crianças
Na semana em que mais de um milhão de crianças e jovens regressam às aulas, o especialista em atividade física lembra que os alunos passam "quase 80% do tempo sentados" à secretária e que, depois, o trajeto entre casa e escola também não requer muito movimento.
São muito poucos os que andam a pé ou usam a bicicleta, numa altura em que o sedentarismo e os casos de obesidade são cada vez mais preocupantes, alerta o professor da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa.
Este é um dos motivos por que Carlos Neto pede um novo "'design' da cidade", um modelo que "crie cidades ativas", com ciclovias e passeios seguros que possam pôr fim à rotina de as crianças estarem "sempre sentadas em casa, sentadas no automóvel, sentadas na escola".
O corpo está "a perder referências biológicas", o que irá traduzir-se em problemas de saúde, alerta na entrevista ao podcast LusaExtra (https://www.lusa.pt/lusaextra).
O foco na mobilidade permitiria criar uma sociedade mais culta do ponto de vista físico, lembra o especialista, que recorda "dados preocupantes" do Instituto Nacional de Estatística (INE) e do Eurobarómetro, que colocam Portugal muito atrás dos países europeus.
"Só 5,4% dos cidadãos portugueses pratica exercício físico todos os dias", disse o especialista, lamentando que a maioria dos portugueses "não faz atividade física" e "75% tem uma inatividade física generalizada".
Entre as crianças, a taxa de obesidade é de 13,5%, sendo que mais de uma em cada três tem excesso de peso. "Isto é uma desgraça para a saúde, não só nestas idades, mas tendo em conta todos os problemas que coloca do ponto de vista das suas vidas escolares, familiares e sociais para o futuro".
A estes problemas soma-se a dificuldade que muitas famílias têm em conseguir que os filhos façam atividade física. Muitos não têm tempo, a maioria não tem capacidade financeira para pagar clubes desportivos, segundo um estudo nacional.
Este verão, o Governo aprovou o Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo (PNDD) e estabeleceu uma nova Estratégia Nacional para o Desporto Escolar (ENDE).
Carlos Neto diz que o plano é bom, mas "é preciso saber se é aplicável": "Se trabalharem em rede, é possível que Portugal possa ter um plano suficientemente robusto para que todas as crianças tenham acesso à prática física e desportiva. E isso é muito bom".
"Espero que estes dois planos (o PNDD e o ENDE) possam ser desenvolvidos. Mas também é importante dar importância à educação física escolar, organizada nas escolas, com profissionais competentes", defende o professor.
É a soma entre o desporto e o que as pessoas fazem com o seu tempo livre que pode criar um nível de literacia necessário para uma boa saúde mental e física, defende.
Por isso, Carlos Neto pede também um "Plano Nacional para o Brincar", que teria como missão pensar políticas públicas para os espaços exteriores, mas também para os recreios das escolas.
"Nós trabalhamos em guetos, de forma egocêntrica. As escolas e os pais não vão resolver o problema sozinhos", disse, defendendo que "os cidadãos merecem ter melhor qualidade de vida".
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