Jorge Palma, que terrapianou os nossos campos
Cada um de nós perdoou-se pelo menos uma vez com Jorge Palma. Pelos males que fizemos, não a outros, mas a nós mesmos. Pelas fendas, lascas, feridas que esventrámos sem crer nos nossos desfazeres sangrentos. Porque o Palma é abissalmente humano, a ele devemos paixão e compaixão. As canções do Palma não nos absolvem, perdoam-nos. Nunca de vez, pelo menos uma vez. “Tenho duas almas em guerra / E sei que nenhuma vai ganhar”.
Agora é a manhã depois da sua vida e nós andamos para aqui desconsolados agarrados aos poemas. O Palma nunca foi herói nem anti-herói, ele cantou como um romântico curável treinado a estar perto do fim. As músicas não são salmos, as letras não são escrituras e ele não é sacerdote, é o tipo na rua de viola às costas que canta de fora um sistema que devora. As canções ensinam-nos não a estar menos sós, mas a estar melhor sós. “Descobres o mundo de quem tem pouco a perder / E sobes às estrelas que ontem não podias ver”.
Fiz programas de televisão com canções do Palma, escrevi editoriais citando letras do Palma – um em 2010, antes da troika, sobre as nossas dependências da dívida, credo! – mas a minha pelo-menos-uma-vez foi em 1991, de mão rasgada, ossos fraturados e outros traumatismos sulcados num desastre, o médico prescreveu entorpecentes e o descanso absurdo de não pensar, de não raciocinar nem estudar nem nada, era urgente não sentir urgência, e eu inscrevi-me no sanatório musical de “Só”, álbum acabado de sair da editora e de entrar em nós, um piano que para sempre ouvi vivo, ao vivo e ao morto, que faz da cidade de batalha um campo de paz ou pelo menos de pazes, “nós sem ti não sabemos, mamã / Libertar-nos do mal”. É difícil perceber a chave deste álbum, tirando a decisão de que não precisamos de percebê-lo, porque pode um álbum tão deprimido salvar, porque pode a besta dormir na mesma cama, porque pode o paroxismo ser sucedido havendo estrada para andar, porque pode a liberdade, “uma maluca que sabe quanto vale um beijo”.
Um beijo. Uma primeira partilha de uma canção do Palma como declaração secreta de amor, o meu amor de lábios de silêncio e mão de bailarina, a miúda-fogueira-exagero-feiticeira que diz que sem ti não sabe voar, o Palma do bairro do amor e do mapa astral das canções de Lisboa e das casas da música do Porto onde queremos ainda viver depois do fim o verão, “eu sei que tu compreendes bem”.
Escrever hoje, nesta manhã, é uma forma de dizer obrigado, obrigado ao Palma e obrigado à vida por sermos parte deste tempo neste lugar, um tempo de monstros desenjaulados e de julgamentos sumários, um lugar de círculos viciados, de emergências e solidões, de homens de soqueira contra o Frágil, mas também um tempo de contradições, de tempestade e suavidade, um lugar de Palma, e “a urgência de agarrar / Qualquer coisa para mostrar / Que afinal nós também temos mão na vida”.
Adeus, ó Palma, deixa-me rir, deixo-te ir e leva as cordas do teu piano.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.