O elo mais frágil da reforma da Saúde Mental
Há anos que Portugal discute a necessária reforma da saúde mental. O diagnóstico é conhecido: é preciso ultrapassar modelos excessivamente centrados no hospital e aproximar os cuidados das pessoas, das famílias e das comunidades. Foi neste contexto que as Equipas Comunitárias de Saúde Mental (ECSM) assumiram um papel central na transformação do modelo de cuidados. No papel, a mudança é clara. No terreno, porém, persistem obstáculos que podem comprometer a concretização dessa ambição.
A minha investigação de doutoramento, intitulada Saúde Mental: Novas Configurações na Intervenção do Serviço Social , procurou compreender precisamente como se concretiza esta transformação e quais os desafios enfrentados pelos profissionais que trabalham nas ECSM em Portugal. Os resultados apontam para uma realidade que merece maior atenção pública: a insuficiência de recursos humanos e materiais condiciona a capacidade das equipas para desenvolver respostas de proximidade, integradas e ajustadas à complexidade das necessidades da população.
Em primeiro lugar, é necessário compreender que “comunitário” não significa apenas deslocar o local onde se presta o atendimento. Uma resposta verdadeiramente comunitária pressupõe proximidade, intervenção no território, visitas domiciliárias, acompanhamento das pessoas no seu contexto de vida e articulação permanente com famílias, autarquias, instituições sociais, estruturas de saúde e outras redes locais. Para isso, são necessários tempo, profissionais e meios materiais.
Quando faltam recursos, a intervenção tende inevitavelmente a ser condicionada. A falta ou insuficiência de meios de deslocação, as limitações logísticas e a pressão sobre equipas que nem sempre dispõem dos recursos humanos necessários dificultam a concretização de uma intervenção que deveria estar próxima da vida quotidiana das pessoas.
Existe também um desafio profissional que não pode ser ignorado. O sofrimento mental não acontece isoladamente das condições sociais em que as pessoas vivem. Habitação, emprego, pobreza, isolamento, relações familiares, acesso a direitos e participação comunitária influenciam profundamente os percursos de saúde e doença. É neste espaço que o Serviço Social assume uma função fundamental.
A intervenção dos assistentes sociais nas ECSM ultrapassa a mera resposta a problemas sociais. Envolve avaliação das condições de vida, promoção da autonomia, mobilização de recursos e redes de suporte, articulação interinstitucional, defesa de direitos e participação na construção de projetos de recuperação psicossocial. Quando estes profissionais são insuficientes ou não dispõem de condições de estabilidade e integração adequadas, perde-se uma dimensão essencial do modelo comunitário.
Outro problema identificado prende-se com a distância entre as orientações definidas ao nível das políticas públicas e as condições concretas existentes no terreno. Uma reforma pode ser inovadora no plano conceptual, mas a sua concretização depende da capacidade das equipas para responder à diversidade e complexidade das populações que acompanham.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.