Hitler no Peru
Hitler Mussolini venceu as eleições para a câmara de Queropalca, região centro do Peru – e derrotando a extrema-direita.
Sim, comece por aproveitar a oportunidade para rever os seus sentimentos em relação à progenitura, caso o tenha abençoado, como a do cronista, com um par de nomes próprios em vez de um só. Reconsidere o julgamento sobre um Bruno Manuel, um Ricardo Jorge, um Paulo Alexandre – mesmo uma Carla Patrícia poderá não estar assim tão mal, afinal.
A história conta-se em poucas linhas. Hitler Mussolini Simeón Flores, 45 anos, ensino secundário completo, gerente de uma empresa ligada ao aluguer de maquinaria, transporte de mercadorias e construção de estradas, venceu no início do mês as eleições para a liderança da sua terra-natal, um pequeno município rural na província de Lauricocha, departamento de Huánuco. Foi uma luta renhida, que terminou com a vitória do partido de centro-esquerda Ahora Nación por mais 25 votos do que o Renovación Popular, de Gaspar Osorio. “Musso”, como preferiu ser tratado durante a campanha (enfim, o b.i. não lhe deixava nenhuma boa hipótese), ganhou prometendo melhorar as estradas – área da sua especialidade –, expandir os sistemas de regadio, construir um novo estádio municipal e promover o turismo (esta parte está feita, só com o nome de baptismo). A tomada de posse acontecerá a 1 de Janeiro.
São desconhecidas as convicções políticas dos pais do novo autarca de Queropalca, nascido 36 anos depois das mortes do líder do partido nazi alemão e do do fascismo italiano, não por acaso ocorridas com apenas dois dias de separação. Por outro, sabe-se que não faltam Hitlers no Peru, não tanto por duvidosas simpatias políticas, asseguram os peruanos, mas simples referência a nomes reconhecidos da cultura popular, adoptados frequentemente na ignorância das biografias de quem os celebrizou. Mas caramba: acertar logo em dois dos mais violentos ditadores do século XX é bingo.
O caso, de resto, não é tão bom como aquele de 2018, quando, no mesmíssimo Peru, um candidato chamado Hitler Guesclin Alba Sánchez e outro chamado Lenin Vladimir Rodríguez Valverde disputaram as eleições para a câmara de Yúngar, na região andina de Áncash, a 300 tortuosos quilómetros de Queropalca (na altura, o primeiro venceu a contenda histórica apresentando-se como “o Hitler bom” e slogans de gosto discutível como “Hitler regressa” ou “Hitler com o povo”). Mas serve para nos fazer pensar no valor corrente de nomes e categorias políticas.
A muitos quilómetros dos Andes e na margem de outro oceano, discutimos hoje os equilíbrios possíveis num novo problema de três corpos: PS, PSD e Chega, respectivamente definidos como centro-esquerda, centro-direita e direita radical. Se o partido do centro-direita está mais perto de um ou de outro ou se é equidistante; e, portanto, se o futuro da governabilidade depende do entendimento para a formação de um bloco central, que deixe de fora os extremos, ou da divisão entre dois blocos: um entre as forças de esquerda e outro entre as de direita.
De diferentes formas e em diferentes pontos de evolução da experiência, as mesmas questões se vão colocando hoje por toda a Europa.
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