Xi procura manter viva a imagem "do tipo certo de Mao"
Às 4h da tarde, a mensagem foi transmitida nos altifalantes espalhados por todas as ruas da China: Mao Tsé-Tung, “o grande e amado líder do nosso Partido, do nosso Exército e das pessoas de todas as etnias no nosso passado, o grande líder do proletariado internacional e dos povos oprimidos”, tinha morrido. Estávamos a 9 de setembro de 1976 e a China absorvia a notícia da morte do seu líder.
Com Mao, a China assistiu à ascensão do Partido Comunista (PCC) e à unificação de praticamente todo o território (com exceção de Taiwan). Mas, ao longo dos últimos 25 anos anteriores, o país também foi marcado pela violência do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural, que levaram à morte de dezenas de milhões (40 a 70, segundo as estimativas) — mais do que o número de mortes causadas por Hitler e Estaline juntos.
No funeral, os mesmos altifalantes que anunciaram a morte de Mao passaram a Internacional. Mais de duas mil pessoas reuniram-se na Praça de Tiananmen, algumas em lágrimas, para o último adeus ao Grande Timoneiro. “Alguns soluçavam convulsivamente, outros choravam copiosamente e havia quem tivesse acessos de soluços como se fosse sufocar”, recorda o escritor Yu Hua no seu livro China em Dez Palavras (ed. Relógio d’Água). “Nunca tinha ouvido tal cacofonia.”
Daí para a frente, a Constituição chinesa passou a incluir o seguinte parágrafo : “Mao Tsé-Tung, o principal representante do Partido, criou o Pensamento de Mao Tsé-Tung, que se provou através da prática ser correto e no qual o Partido Comunista se baseou para desenvolver o sistema básico do socialismo, economicamente, politicamente e culturalmente, após a fundação da República Popular.”
Quarenta anos depois, centenas reuniram-se esta quarta-feira em vários pontos da China para prestar homenagem ao líder. As celebrações, porém, foram mais tímidas do que outras do passado. Um sinal da ambiguidade com que o Partido, liderado por Xi Jinping, encara atualmente o legado do Grande Timoneiro. Numa altura em que os jovens redescobrem Mao e a sua popularidade recrudesce entre alguns, as autoridades chinesas continuam a fazer um ato de equilibrismo, inspirando-se em alguns dos pensamentos do antigo líder, mas reconhecendo-lhe alguns “erros”, numa tentativa de impedir o crescimento das franjas neo-maoístas — não vão elas ameaçar os atuais poderes.
O consenso é nacional. Uma sondagem divulgada pelo Global Times (jornal próximo do PCC) em 2013 dava conta de que mais de 85% dos inquiridos consideravam que os feitos de Mao eram maiores do que os seus erros. Mais de dez anos depois, o cenário não terá mudado muito. Entre as gerações mais velhas, muitos continuam a admirar Mao. E para os que nasceram entretanto (metade da população chinesa nasceu após a morte do líder), o Grande Timoneiro é cada vez mais uma figura mítica que ganha relevância no contexto atual das suas vidas.
“Não interessa se se é novo ou velho”, partilha com o Observador o historiador especialista na China Kerry Brown . “Ele é o símbolo de uma China forte e poderosa que era respeitada. Mao Tsé-Tung encaixa-se na atual narrativa do Partido como uma pessoa que começou a tornar ‘ a China grandiosa outra vez ’.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.