O que está a acontecer com as universidades? — Debate
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Muito bom dia. No Contra Corrente de hoje debatemos o caso Jayson Arday, o acadêmico que tinha um currículo pessoal e profissional cheio de mentiras, lacunas e fraudes. Arday enganou quase toda a gente, mas o que torna as circunstâncias da vida, e também da morte deste professor de Sociologia da Universidade de Cambridge, em algo que vai muito para lá de um drama pessoal, é a constatação de que Arday só enganou quem quis ser enganado: a academia. O que está a acontecer com as universidades, Helena Matos? Bom dia.
Bom dia. Eu espero que ao longo deste programa consigamos perceber o seguinte: se as universidades entraram num processo em que muitas vezes trocaram a procura do saber, a crítica, a contestação e a formulação de dúvidas, que foi sempre aquilo que as fez avançar, o querer saber, o querer conhecer, por políticas de ativismos. Pode dizer-se: "Mas sempre se contestou a sociedade." Pensem o que eram as universidades portuguesas nos anos 60, 70, as francesas, as espanholas, as inglesas, americanas. Sim, mas não estava em causa mudar os conteúdos. Havia a perspectiva de escavacar o mundo, mas não de mudar os conteúdos. Não se falava numa matemática desracializada ou numa literatura inclusiva, quer dizer, "Os Lusíadas" eram o que eram. Sem sermos do nosso campo, a ideia era construir outro mundo, não era propriamente fazer de conta que o mundo nunca tinha sido assim.
Exatamente. Eu acho que é importante ter isso em conta. Nós estamos diante de um drama pessoal que terminou de uma forma que dificilmente poderia ter outro desfecho. Esta é uma opinião meramente pessoal. Mas é como quando as pessoas começam a entrar naquelas espirais de mentira e nós vemos volta e meia, temos casos na midiática, estou a pensar o caso de um senhor em França que inventou que era médico na Organização Mundial de Saúde e que teve um desfecho mesmo muito trágico, porque a uma altura as pessoas vão conseguindo construir estes cenários. Tivemos também o caso de uma senhora que tinha inventado durante a Segunda Guerra Mundial, em plena Europa, que tinha sobrevivido com uma alcateia de lobos. Portanto, as coisas em geral acabam muito mal, tragicamente pra estas pessoas.
Pois, e acabam mal porque é quase como se houvesse uma pulsão de a seguir a uma primeira mentira bem-sucedida, haver outra mentira, outra mentira, outra mentira, porque aquela personagem que eles vão construindo tem um enorme reconhecimento. É como se na sua construção de mentiras e na construção de um outro eu, acabassem a responder a uma necessidade ou a uma procura, a uma demanda da sociedade. E este homem, que era filho de imigrantes ganeses, vai construir todo um percurso que parecia quase ser a peça do puzzle que encaixava naquilo que a velha Cambridge, nestes tempos do wokeism, procurava.
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