"Retaliação": Gouveia e Melo explica como uma decisão dos EUA retirou de uma só vez duas capacidades à Ucrânia
O presidente dos Estados Unidos olhou para o calendário e depois olhou para os preços dos combustíveis e soaram os alarmes. A pouco mais de duas semanas das eleições intercalares, que vão decidir a flexibilidade política de Donald Trump no que falta do mandato, a Casa Branca decidiu “retaliar” contra a Ucrânia, utilizando essa carta para dar uma benesse à Rússia e, em último caso, a si mesma.
A expressão de “retaliação” vem do almirante Henrique Gouveia e Melo, que não tem dúvidas em classificar dessa forma o corte no terminal Starlink, ferramenta essencial para a Ucrânia resistir à Rússia.
Na edição de “Entre Dois Mundos” desta semana, o especialista militar vê os preços dos combustíveis, nomeadamente do gasóleo, a saírem do controlo, ainda para mais num momento pré-eleitoral.
“A administração [norte-americana] gostaria de controlar o preço do gasóleo e pediu aos dois adversários - mas o pedido é para a Ucrânia - que não atacasse a capacidade de refinação da Rússia”, nota Henrique Gouveia e Melo, que vê com naturalidade a posição do presidente da Ucrânia.
Volodymyr Zelensky não quis ceder nesse ponto, já que atacar o maior motor da economia de guerra da Rússia “é a forma mais rápida para fragilizar” o Kremlin.
Perante a firmeza do presidente da Ucrânia, os Estados Unidos “fecharam o acesso da rede Starlink a veículos que superam uma determinada velocidade”. O mesmo é dizer que muitos dos drones que Kiev utiliza para atacar a Rússia e também para se defender passaram a ser inúteis.
É que esta decisão “impacta a capacidade de ataques a longa distância”, mas também a defesa da Ucrânia dos modificados drones Shahed, agora movidos a propulsão e, por isso, mais difíceis de intercetar.
Para Henrique Gouveia e Melo, esta é uma decisão que tem um impacto “imediato” e vai também ter um “reflexo no número de ataques que a Ucrânia consegue fazer e defender”. Na prática, e numa só decisão, os Estados Unidos retiram duas capacidades cruciais para Kiev continuar a resistir à Rússia.
Em paralelo, o almirante lamenta que a União Europeia esteja a perder a "vontade" em agir, o que deixa a Ucrânia sozinha perante um inimigo muito maior. A responsabilidade neste ponto, garante, é da guerra híbrida da Rússia, que começa a ter os seus resultados.
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