O Estado é deles, o povo é que paga
Temos assistido, um pouco por todo o mundo ocidental, a um fenómeno curioso, mas previsível, a incapacidade crónica dos partidos do sistema, sejam eles de que quadrante forem, em aceitar a erosão da sua própria credibilidade e em fazer uma autocrítica séria sobre o que fizeram, ou deixaram de fazer, com o poder que lhes foi confiado. Olhemos para a Argentina, para a Itália, para a França, para os Países Baixos. Nestes países, as populações, exaustas de estagnação económica e de promessas falhadas, foram procurar noutro lado o que os partidos tradicionais deixaram de lhes dar. E o que fazem, em resposta, os partidos que sempre governaram? Em vez de perguntarem onde falharam, preferem rotular o voto popular de erro, de ignorância ou de perigo para a democracia.
Este texto não é sobre esquerda contra direita. É sobre um paradigma que atravessa todo o espectro partidário. O de organizações que se habituaram a tratar o Estado como território próprio, umas por conivência ativa, outras por puro absentismo, por não fiscalizarem, não perguntarem, não quererem saber, outras ainda porque estiveram no poder e usaram-no para proteger os seus. Não há bancada parlamentar em Portugal que possa, com a mão no coração, dizer que está imune a este diagnóstico.
Em Portugal, o exemplo mais recente e mais desconfortável para quem gosta de arrumar a política em compartimentos ideológicos é o caso do ministro da Administração Interna, Luís Neves. Nomeado em fevereiro de 2026 pelo governo da Aliança Democrática, depois de mais de uma década à frente da Polícia Judiciária, Luís Neves tornou-se, ironicamente, protagonista de um dos episódios mais desgastantes do atual executivo. Foi noticiado que a empresa Construbarcelos, responsável por obras na propriedade do ministro em Odemira, foi também uma das principais adjudicatárias de contratos da PJ durante o período em que este a dirigiu, perto de duas dezenas de contratos, num valor que, segundo a imprensa, ultrapassa o milhão e meio de euros. A este episódio somou-se a apreensão, pela própria PJ, de um atrelado alegadamente ligado a droga na posse de um associado do empreiteiro, falhas reconhecidas na entrega de declarações de rendimentos ao Tribunal de Contas e, mais recentemente, um processo de verificação aberto pela Procuradoria Europeia a contratos financiados por fundos do PRR. Luís Neves defendeu-se invocando três décadas de combate ao crime e recusou qualquer intenção de se demitir, admitindo apenas “eventuais irregularidades” de gestão. Seja qual for o desfecho judicial, e a presunção de inocência é inegociável, o caso ilustra algo que ultrapassa o próprio ministro. Ilustra muito bem a facilidade com que quem chega a lugares de decisão, seja de que cor for, tende a confundir o interesse público com a rede de conhecidos que o rodeia.
E este não é caso isolado nem exclusivo de um partido. Podemos olhar para trás e encontrar o mesmo padrão em governos socialistas, social-democratas, ou de coligações as mais variadas.
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