Tolentino alerta que IA pode fazer esquecer o valor humano das histórias
"O risco não é que as máquinas aprendam a contar histórias, é que, sob pressão da eficiência e da homogeneização algorítmica, nos esqueçamos de que uma história tem valor porque alguém a viveu, a sofreu, a olhou nos olhos antes de a narrar", afirmou, num texto escrito e lido no Book 2.0, que decorre em Lisboa.
Presente no evento, para participar numa mesa dedicada ao tema "Um Mundo que Avança Mais Depressa do que os Seus Valores", o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano pediu à apresentadora, Silvia Alberto, que lesse o seu texto, por se encontrar muito rouco.
Tolentino de Mendonça centrou a parte final da sua reflexão no impacto da inteligência artificial (IA) na criação, reconhecendo a capacidade da tecnologia para "produzir imagens, diálogos e até narrativas inteiras com uma velocidade que nenhum ser humano alguma vez conseguirá igualar", mas distinguindo essa produção da experiência que está na origem da criação literária.
Para o cardeal e poeta, "os textos que a inteligência artificial produz não são imediatamente comparáveis à narrativa ou ao poema" e "a simulação, ainda que se confunda com, não é testemunho".
Tolentino de Mendonça citou ainda a recente encíclica do Papa Leão XIV, "Magnifica Humanitas", segundo a qual "a escolha não é entre o progresso e o atraso, mas sim entre uma técnica que substitui a responsabilidade humana e uma técnica que a serve".
Neste contexto, defendeu a cultura do livro como "uma autêntica barreira natural contra este risco", por preservar a dimensão humana da criação.
"Cada livro recorda que uma história autêntica nasce sempre de um olhar humano, pousado sobre outro ser humano, e que nenhuma geração automática poderá alguma vez substituir esse olhar, esse paciente exercício de cocriação, esse telescópio humano que se chama literatura", considerou.
Na intervenção, o cardeal português partiu das categorias de "escuta, imaginação e cuidado" para refletir sobre o papel da cultura num período que descreveu como "atravessado por transições epocais, ambientais, tecnológicas, demográficas e marcado por acelerações vertiginosas, mas também por perdas de rumo profundas".
"A cultura deve constituir um espaço em que a mudança não é simplesmente sofrida, mas interpretada, acompanhada, humanizada", acrescentou.
Tolentino de Mendonça identificou também "um deficit de escuta" na atual "sociedade da comunicação", marcada por uma "avalanche de palavras", considerando necessária "uma desaceleração interior" que permita dedicar atenção e memória às diferentes vozes.
Para o cardeal, esta capacidade de escuta é também necessária para que a cultura consiga interpretar o presente, em vez de permanecer presa à memória do passado.
"Não podemos culturalmente viver dos mitos e da epopeia de ontem.
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