A ciência ao redor dos ossos
Três pessoas estão em volta de uma mesa com panos azuis em uma sala no Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Em cima dos panos, há ossadas humanas.
Uma perita pega um dos ossos, segura-o e pergunta para as colegas o que elas acham daquele fragmento.
Uma delas observa mais de perto e aponta para uma imagem em uma apostila aberta sobre a mesa.
A cena faz parte do cotidiano do laboratório forense que investiga remanescentes de pessoas mortas e desaparecidas durante a ditadura militar no Brasil.
Profissionais que trabalham ali investigam remanescentes ósseos de diferentes partes do país que podem pertencer a vítimas da ditadura e têm como missão identificar os corpos e tentar descobrir o que aconteceu com eles.
A rotina dos peritos, que foi registrada em vídeo nos últimos quatro anos para uma pesquisa científica, agora se tornou uma exposição imersiva.
A mostra “Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado” fica em cartaz entre os dias 14 de agosto e 27 de setembro no Centro Maria Antonia da Universidade de São Paulo (USP), na capital paulista.
Além dos espaços de exposição, conta com uma programação paralela de filmes (entre eles “Nuestras Madres”, do cineasta guatemalteco César Díaz, e “Madres Paralelas”, de Pedro Almodóvar), debates, oficinas sobre atividades forenses, história e memória da ditadura militar e mesas redondas com familiares de desaparecidos políticos.
A instalação reúne cenas gravadas para o projeto Fazendo Falar os Ossos, financiado pela FAPESP e pela agência suíça SNSF (Swiss National Science Foundation), encabeçado pelas pesquisadoras Fernanda Miranda da Cruz, da Unifesp, e Lorenza Mondada, da Universidade de Basileia, na Suíça, em parceria com o filósofo Edson Teles, coordenador do CAAF.
A exposição nasceu da pesquisa que aproxima a linguística da antropologia forense – a ideia do projeto surgiu de uma conversa informal entre os pesquisadores, em que Teles contou para da Cruz e Mondada sobre como os peritos forenses abriam, pela primeira vez, sacos com remanescentes humanos recém-chegados ao laboratório.
“Fiquei muito impressionada [com o relato], porque não eram restos humanos quaisquer”, lembra a pesquisadora suíça, uma vez que as ossadas em questão poderiam ser de desaparecidos da ditadura.
Na época, Mondada já trabalhava com investigação de interações sociais em ambientes de trabalho delicados, como salas de cirurgia.
Divulgação / CAAF-Unifesp Remanescentes ósseos que podem pertencer a vítimas da ditadura militar no Brasil são analisados no Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, na capital paulista Divulgação / CAAF-Unifesp Da conversa em 2017, surgiu a vontade de entender os detalhes das interações da equipe forense.
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