A barganha neurótica
Existe uma espécie de negociação que acontece longe das mesas, dos contratos e das palavras ditas em voz alta.
Uma negociação íntima, quase clandestina, que a pessoa estabelece com a própria realidade na tentativa de fazê-la obedecer aos seus medos.
É a barganha neurótica.
Não se trata daquela negociação cotidiana em que duas pessoas cedem, combinam, encontram um meio-termo.
A barganha neurótica nasce em outro lugar: na necessidade de acreditar que, se fizermos determinadas coisas, conseguiremos impedir determinadas perdas.
Como se a vida fosse regida por uma lógica secreta de causa e efeito e nós precisássemos apenas descobrir a combinação correta.
Se eu for suficientemente boa, ele não irá embora.
Se eu não contrariar, ela não ficará zangada.
Se eu trabalhar até não aguentar mais, ninguém poderá dizer que não sou competente.
Se eu cuidar de todos, talvez ninguém perceba o quanto estou cansada.
Se eu não precisar de ninguém, ninguém terá a oportunidade de me abandonar.
A pessoa vai fazendo acordos com aquilo que não pode controlar e, sem perceber, transforma a própria existência numa sucessão de condições.
Talvez o aspecto mais perturbador da barganha neurótica seja justamente sua aparência de racionalidade.
Ela raramente chega anunciando o absurdo.
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