Limitar estrangeiros não garante mais espaço e melhores jovens brasileiros
A decisão de reduzir gradualmente o limite de estrangeiros relacionados no Campeonato Brasileiro — dos atuais nove para oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco em 2030 — parte de uma realidade, mas não necessariamente aponta para uma saída comprovada. O estudo apresentado pela CBF mostra que os brasileiros sub-23 ocupam apenas 11,5% dos minutos da Série A.
Contando também os estrangeiros jovens, chegam a 13,8%. Na França, os sub-23 ocupam 38% dos minutos; na Inglaterra, 32%; na Espanha, 31%; e na Alemanha e na Itália, 28%.
Vale considerar ainda que, em muitos países europeus, atletas nascidos no exterior adquirem cidadania local e deixam de aparecer nas estatísticas como estrangeiros, embora tenham vindo de fora. Também é verdade que a participação de estrangeiros acima de 23 anos no Brasileirão cresceu de 7,8% dos minutos em 2020 para 25% em 2026.
Há uma correlação evidente entre os dois movimentos. O problema está em eventuais conclusões equivocadas.
Tirar estrangeiros não significa que as vagas abertas serão ocupadas por bons jovens brasileiros. Elas podem simplesmente ficar com brasileiros mais velhos e de nível técnico inferior. E há contraexemplos à tese de que muitos estrangeiros necessariamente sufocam a formação de jogadores locais. Na Inglaterra, o melhor deles.
Na temporada 2025/26, cerca de 71% dos jogadores da Premier League eram estrangeiros, a maior proporção entre as cinco grandes ligas europeias. Na Serie A italiana 67%, na Ligue 1 francesa 65%, na Bundesliga 61% e em LaLiga 43%, segundo levantamento do diário espanhol AS.
Contudo, mesmo com sete de cada dez jogadores da Premier League vindos de fora, o país vive uma das melhores fases de formação de sua história. Os ingleses foram campeões mundiais sub-20 e sub-17 em 2017 — Phil Foden eleito o melhor jogador do Sub-17 — e conquistaram duas Eurocopas sub-21 consecutivas, em 2023 e 2025.
No profissional, após décadas de resultados modestos, a seleção chegou às semifinais das Copas do Mundo de 2018 e 2026, além de ser vice-campeã das Eurocopas de 2020 e 2024. Tal modelo coexistiu com o surgimento de uma forte geração de jogadores locais.
A Espanha oferece outro ângulo para a discussão. LaLiga é menos internacionalizada que a Premier League, mas ainda tem aproximadamente 43% de estrangeiros, proporção muito superior à brasileira. E alguns de seus clubes mais poderosos estão muito acima dessa média.
O elenco mais rico, do Real Madrid de 2025/2026 tinha 20 estrangeiros em um grupo de 30 jogadores, ou 66,7%. Isso não impediu o país de produzir Lamine Yamal, Pedri, Gavi, Nico Williams, Pau Cubarsí e outros jovens de altíssimo nível.
A Espanha ganhou a Nations League de 2023, a Euro de 2024 e, agora, a Copa do Mundo de 2026, tornando-se novamente campeã mundial. O Real Madrid, por sua vez, segue entre os clubes de maior desempenho internacional apesar de montar elencos majoritariamente estrangeiros.
Ou seja, ter muitos jogadores de fora e revelar talentos nacionais não são fenômenos incompatíveis.
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