O avesso do Ideb: o que os números escondem?
A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga, doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.
Na semana passada, foram divulgados novos dados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), instrumento criado pelo Inep em 2007 com o objetivo de medir a qualidade do ensino através de uma combinação da taxa de aprovação escolar e das notas de estudantes do Ensino Fundamental e Médio em uma prova nacional que avalia Português e Matemática. Segundo o MEC, o Ideb brasileiro cresceu em todas as etapas da educação básica.
Se, por outro lado, o Ideb cai, sobe pouco ou fica longe das metas estabelecidas, a oposição encontra um prato cheio para proferir ataques que mobilizam tais números como prova de descaso com a educação.
Em qualquer dos casos, há algo que poucas vezes é levado em consideração: o que o Ideb efetivamente mede? Quais estatísticas, entre as muitas disponíveis, foram escolhidas pelos gestores para comprovar os “avanços”? Ou por seus opositores, para comprovar o “atraso”? O que integra e o que está ausente dessa quantificação da qualidade do ensino? Afinal, o que o Ideb mostra e o que ele nos impede de ver?
As descrições estatísticas e os números-índices, como o Ideb, são, de modo geral, instrumentos importantes para a tomada de decisões dos gestores. No entanto, precisamos compreender que eles focalizam determinados ângulos escolhidos para expressar aquilo que interessa conhecer. São escolhas legítimas, que indicam determinadas opções políticas sobre o que é mais importante analisar a cada momento. Mas definir um foco significa que, necessariamente, sempre ficam de fora outros aspectos, considerados então de importância secundária ou simplesmente desimportantes.
No caso da fórmula matemática que resulta no Ideb, ficam valorizados os conhecimentos de matemática e a capacidade de leitura dos alunos e alunas, bem como a competência do sistema escolar em manter as crianças e os adolescentes na escola. Na prática, para uma escola ter um bom Ideb é preciso que seus estudantes tirem boas notas nas provas nacionais ao mesmo tempo que se mantenha uma reprovação geral baixa.
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