Heloisa Pires Lima: ‘Uma criança que não se vê em lugar nenhum é decretar a não existência dela’
Aos 70 anos, a escritora, antropóloga e educadora Heloisa Pires Lima chega à 72ª Feira do Livro de Porto Alegre carregando uma trajetória marcada pela literatura, pela educação e pela defesa da diversidade de saberes. Anunciada na semana passada como patrona do evento, ela é a primeira mulher negra a ocupar o posto em mais de sete décadas de história da feira. É também a segunda pessoa negra a receber a homenagem, depois do escritor Jeferson Tenório, patrono em 2020.
Em entrevista ao Brasil de Fato , Lima falou sobre o significado da escolha, o racismo que historicamente atravessou o mercado editorial e a importância de ampliar a presença de personagens e autores negros na literatura. Também abordou a ancestralidade, a produção para crianças e os desafios impostos pelas novas tecnologias.
“Eu recebi isso com muita emoção, uma emoção indescritível, uma mistura de muitos sentimentos mesmo. Mas eu fiquei muito feliz pelo reconhecimento, porque as sociedades aprendem a ser menos racistas também”, afirmou.
Para Lima, reconhecer conquistas é especialmente importante em um momento de avanço dos extremismos e dos discursos de ódio. “De um lado, é um avanço dos extremismos, dos ódios. E, por outro lado, a gente tem uma consciência cada vez maior em busca de uma equidade humana, de um humanismo. E no humanismo não cabe racismo.”
A escritora avalia que a escolha como patrona também é resultado de mudanças provocadas pelas demandas históricas do movimento negro. Ao mesmo tempo, ressalta que a literatura negra ainda carrega as marcas do que chama de “racismo editorial”.
“Livro de negro ficava lá no cantinho da prateleira. Isso se ele publicava. Quando ele publicava, ele já sabia que não ia vender porque a população negra não tem dinheiro, porque a população negra gosta de samba, não gosta de letra. Tudo falso, os preconceitos.”
Lima lembra uma exposição que realizou em Brasília, entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, sobre a produção de escritores e escritoras negras dos séculos 19 e 20. Entre os livros expostos, havia um conjunto de obras identificadas como “publicação do autor”. “Isso quer dizer o quê? Que as editoras não publicavam, que é um ranço. Hoje em dia, a gente mudou muito essa cultura.
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