O patrocínio de bets via Lei Rouanet é prejudicial ao setor cultural? SIM
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Há 40 anos promovo shows e vivo da cultura . Produzi artistas, festivais e filmes. Atravessei o vinil, o VHS, o CD e o streaming; a hiperinflação, a pandemia e sucessivos ataques ao setor. Nunca vi nada ocupar o imaginário brasileiro com a velocidade das apostas online.
Recentemente, saí de uma reunião sobre ingressos e bets em Brasília com uma convicção. O ex-presidente Michel Temer ( MDB ) não apenas deu um golpe no Brasil: ao autorizar as apostas de quota fixa , em 2018, também abriu a porta para que elas passassem a fazer parte da nossa vida.
Suposta incompatibilidade é viés ideológico; colocar incentivo em xeque objetiva marginalizar uma indústria legalizada
O cenário é este: as bets estão invadindo a cultura brasileira . As casas de apostas se tornaram as principais patrocinadoras dos festivais do país . Seus nomes estão nos palcos, nas áreas VIP, nas transmissões. Mas, enquanto ocupam os palcos, podem estar esvaziando as plateias: o dinheiro que antes sobrava para um cinema, um festival ou uma saída cultural hoje desaparece em dívidas e apostas.
O custo social dessa indústria é estimado pelo Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) em R$ 38,8 bilhões por ano, mais do que o triplo do que elas arrecadam. E quem trabalha no setor vem observando: mesmo com oferta cultural, os shows voltados para o público de baixa renda têm dificuldade para encher suas plateias.
Não se trata de dizer que esse dinheiro prejudica o caixa da cultura . No curto prazo, ele o engorda, e seria cínico fingir o contrário. A questão é que a cultura entrega algo muito mais valioso do que espaço ou audiência: associação, legitimidade, a capacidade de tornar algo desejável, familiar e normal. É exatamente aquilo de que uma bet mais precisa.
Já fizemos essa escolha antes. Vivi os anos em que a indústria do cigarro batizava os maiores festivais do país. Em 2000, o Congresso proibiu o patrocínio cultural pelo tabaco e a propaganda de cigarro em palcos. Ninguém perguntou se prejudicaria o setor, mas se o Estado deveria deixar uma marca nociva comprar espaço na vida das pessoas. A resposta foi não; e a música continuou existindo.
E quem sustenta isso não é quem pode recusar. É o artista pequeno, que recebe a proposta pronta e decide entre assinar ou não estrear. Ele não escolheu a marca, mas é o nome dele que vai junto dela —e foi a vida inteira construindo esse nome.
Por isso, faço um apelo. Se não formos capazes de acabar com as bets no Brasil , no mínimo não podemos permitir que elas usem leis de incentivo fiscal. Não é razoável que um mecanismo criado para financiar a cultura vire ferramenta de marketing de quem já ocupa espaço excessivo na sociedade. E não é justo colocar o pequeno artista diante de uma escolha que, na prática, nem escolha é: aceitar a bet ou não trabalhar.
Eu também mudei de posição. Defendia que era preciso regular. Hoje acho que precisamos discutir seriamente acabar com elas . Durante décadas, vivemos sem bets ocupando esse espaço, e isso ainda é possível. Não quero vê-las nos palcos, nos festivais, nos projetos culturais.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.