Tragédia no Nepal e Tibete acende alerta para os riscos de derretimento de geleiras
Cientistas alertam que as mudanças climáticas criam condições propícias a catástrofes como as violentas enxurradas que atingiram a região do Himalaia, entre o Nepal e o Tibete, na China, na quarta-feira (26). As causas exatas do desastre ainda estão sendo determinadas, mas imagens de satélite fornecidas pelo Planet Labs sugerem que a ruptura da parte inferior de uma geleira desencadeou a enchente.
Especialistas indicam que uma gigantesca avalanche de gelo e rochas nas encostas norte de Langtang Lirung, no Nepal, provavelmente levou ao desastre. Uma grande parte da língua glacial se rompeu a uma altitude de cerca de 5,2 mil metros, antes de desabar por mais um quilômetro abaixo, segundo especialistas.
Quase 1,5 mil pessoas estão desaparecidas, entre elas pelo menos 800 estrangeiros, depois que um deslizamento de terra no Himalaia causou inundações. Segundo balanço ainda provisório das autoridades, o número de mortos subiu para 362.
As imagens de satélite mostram que uma grande quantidade de neve pode ter derretido nas 24 horas anteriores ao desastre, disse Dan Shugar, geocientista da Universidade de Calgary, embora os dados meteorológicos locais ainda não tenham confirmado isso. Os especialistas acreditam que o aumento das temperaturas e o derretimento das geleiras provavelmente contribuíram para o desastre, mas não foram a única causa.
"Precisaríamos de uma investigação detalhada dos registros de temperatura e de todos os outros detalhes para confirmar a natureza deste evento ou atribuí-lo às mudanças climáticas. Mas uma coisa que podemos afirmar com certeza é que as mudanças climáticas levaram a um aumento da temperatura, e essa elevação térmica causou alterações na criosfera e nos seus componentes como geleiras, lagos glaciais, o permafrost - e isso leva à probabilidade de ocorrência desse tipo de evento aumentar", explicou à RFI Prashant Baral, glaciologista especialista na criosfera, as regiões da Terra cobertas por gelo.
Baral salientou que tanto os solos quanto as paisagens degeladas estão se tornando instáveis. O aquecimento pode reduzir o gelo em encostas íngremes e alterar os ciclos de geada e precipitação, o que pode enfraquecer as encostas das montanhas e aumentar o risco de colapso.
"As geleiras estão recuando, e vemos a formação desses lagos glaciais, que em área e volume estão se expandindo", disse o pesquisador do Centro Internacional pelo Desenvolvimento Integrado das Montanhas (Icimod), baseado no Nepal.
As hipóteses iniciais concentram-se na possibilidade de uma inundação repentina causada pelo rompimento de um lago glacial, conhecida como "GLOF" (sigla em inglês para Glacial Lake Outburst Flood), um evento cuja frequência e risco vêm aumentando com as mudanças climáticas.
Um GLOF ocorre quando uma barragem natural frágil, composta por detritos e que retém um lago formado pelo degelo de geleiras, rompe-se subitamente, liberando a água represada.
"A única razão pela qual um grande volume de água poderia ter descido o vale repentinamente é que ela foi liberada de uma só vez", disse Adrian McCallum, glaciologista da Universidade de Sunshine Coast, na Austrália.
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